Em referência ao Dia Mundial da Asma, celebrado em 5 de maio, a equipe de Pneumopediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp realizou, na última quarta-feira (30), um mutirão voltado a pacientes que aguardavam há cerca de seis meses por exame de espirometria pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O procedimento é pré-requisito para a retirada de medicação inalatória gratuita. A ação ocorreu no Ciped – Centro de Investigação em Pediatria e buscou ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado.
Durante a força-tarefa, foram atendidos pacientes com quadros mais complexos e também casos encaminhados da atenção básica. “Atendemos 10 pessoas com asma grave, que já fazem parte da rotina do nosso ambulatório, e realizamos 25 espirometrias em pacientes de uma Unidade Básica de Saúde. A médica da Prefeitura, Emília Gonçalves, nos encaminhou pacientes que precisavam dos exames para poder obter a medicação via SUS”, explica a coordenadora do Ciped, Adyléia Contrera Toro.
“Para fazer essas espirometrias contamos com a ajuda da fisioterapeuta Carla Gomez e da pediatra Milena Grotta, que trouxeram aparelhos particulares (espirômetros), o que facilitou a realização dos exames. Também tivemos a grande ajuda de alunos de pós-graduação e dos residentes da Pneumopediatria”, destaca a docente. Ela acrescenta que os pacientes também passaram por avaliação da atividade inflamatória pulmonar por meio da Fração Exalada de Óxido Nítrico (FeNO). Participaram ainda o professor Dirceu Ribeiro, do Departamento de Pediatria, e as as pneumologistas pediátricas Andressa Peixoto, Layla Silva Matos e Daniela Paiva Borgli, do Hospital de Clínicas.

A iniciativa dialoga diretamente com o tema da campanha deste ano, definido pela GINA (Global Initiative for Asthma), principal referência mundial para diagnóstico, tratamento e prevenção da doença: “Acesso aos inaladores anti-inflamatórios para todas as pessoas com asma – ainda uma necessidade urgente”. O slogan evidencia um dos principais desafios no manejo da condição: garantir que o tratamento adequado chegue de forma contínua a quem precisa.
A asma é uma doença inflamatória crônica que afeta mais de 260 milhões de pessoas em todo o mundo. Estima-se que mais de 450 mil mortes anuais sejam atribuídas à condição, sendo a maioria considerada evitável. Para Adyléia, a realidade observada na prática clínica reflete exatamente os problemas apontados pela campanha internacional.
“Muitos pacientes ainda chegam com a asma mal controlada porque utilizam apenas medicações de alívio, como o broncodilatador, e não fazem uso regular do tratamento anti-inflamatório. Na Unicamp, percebemos que, quando o paciente tem acesso adequado ao corticosteroide inalatório e recebe orientação correta, há redução importante das crises, das idas ao pronto-socorro e das internações”, afirma.

“O problema muitas vezes não é a falta de tratamento — ele existe —, mas sim a dificuldade de acesso, o uso inadequado ou a interrupção do mesmo”, ressalta a especialista, destacando que a adesão e a continuidade do cuidado ainda são desafios relevantes no controle da doença.
A professora aponta três frentes principais para garantir o acesso contínuo aos corticosteroides inalatórios no Brasil. A primeira é estrutural, relacionada à disponibilidade irregular desses medicamentos na rede pública em diversas regiões. A segunda é econômica, especialmente para pacientes que precisam adquiri-los fora do SUS. A terceira envolve a educação em saúde, aspecto essencial para a continuidade da terapia.
“Muitos pacientes ainda não entendem que a asma é uma doença inflamatória crônica e que o tratamento precisa ser mantido mesmo na ausência de sintomas. Também observamos dificuldades no uso correto dos dispositivos inalatórios, o que compromete a eficácia”, explica Adyléia.

Para a coordenadora do Ciped, iniciativas como o Dia Mundial da Asma têm papel fundamental na melhoria do cuidado. “Essas ações ajudam a traduzir o conhecimento científico em informação acessível. Também são oportunidades para capacitar profissionais, padronizar condutas e fortalecer políticas públicas”, destaca.
Ela chama atenção, ainda, para a necessidade de ampliar a visibilidade da doença. “A asma é uma condição comum, potencialmente grave, mas que pode ser bem controlada quando tratada adequadamente”, conclui.
Como desdobramento desta ação, a equipe pretende estruturar iniciativas contínuas voltadas ao cuidado da asma, incluindo programas educativos para pacientes e familiares, além de estratégias para ampliar o acesso ao tratamento adequado.
Em nível global, a GINA reforça o apelo a governos, sistemas de saúde, profissionais e à indústria farmacêutica para garantir a disponibilidade e a acessibilidade dos inaladores essenciais. A recomendação é priorizar, sempre que possível, medicamentos combinados — com anti-inflamatório e broncodilatador de longa duração —, que comprovadamente reduzem crises e hospitalizações.
