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Primeira cotista negra do PPG em Tocoginecologia da FCM revela desigualdade racial no diagnóstico de câncer de mama

Pesquisa da fisioterapeuta Mariana Almeida mostra que mulheres negras levam 1,5 vez mais tempo para realizar biópsia em comparação com brancas na região de Campinas

Mariana Roberta Alves de Almeida no dia 6 de janeiro se tornou a primeira aluna proveniente das cotas étnico-raciais do Programa de Pós-graduação em Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp a defender mestrado. Sua dissertação revelou dados sobre desigualdades raciais no acesso ao diagnóstico de câncer de mama – neoplasia que mais causa óbitos entre mulheres no Brasil – na macrorregião de Campinas. A pesquisa, orientada pela professora Diama Vale, do Departamento de Tocoginecologia, demonstrou que mulheres negras levam em média 77,71 dias para realizar biópsia após o exame inicial, enquanto brancas levam 53,7 dias – uma diferença de aproximadamente 1,5 vez.

O estudo também revelou que apenas 20% das mulheres negras tiveram acesso a consulta com especialista em até 60 dias, comparado a 41,4% das brancas. “Defender meu mestrado como a primeira aluna cotista étnico-racial do programa não foi apenas uma conquista individual, mas um marco coletivo. Significou ocupar um espaço que historicamente foi negado a pessoas como eu, especialmente mulheres negras”, afirmou Mariana. A pesquisadora destacou que esse percurso foi ainda mais simbólico por ter acontecido na mesma universidade onde sua mãe, Miriam, trabalhou como técnica de enfermagem.

Metodologia e resultados

O estudo de corte transversal entrevistou 190 mulheres com diagnóstico confirmado de câncer de mama antes do início do tratamento – 80 negras e 110 brancas. A análise coletou dados sociodemográficos, clínicos e de acesso por meio de entrevistas pré-estruturadas. Os resultados mostraram que mulheres negras eram mais jovens e pertenciam mais frequentemente ao estrato econômico mais baixo (77,9% versus 60,8%). No acesso ao cuidado, iniciaram atendimento mais frequentemente em unidades públicas de referência (28% versus 9,8%), enquanto as brancas recorreram mais a consultórios privados (19,7% versus 8%).

A diferença no tempo de acesso à biópsia foi ainda mais acentuada nas faixas de menor renda: 80,7 dias para mulheres negras contra 52,1 dias para brancas. O único fator que esteve significativamente associado de forma independente com o maior tempo entre o exame inicial e a biópsia foi a raça, mesmo considerando idade, forma de apresentação da doença e extrato socioeconômico. A análise estatística incluiu testes específicos e admitiu nível de significância de 5%. Os dados evidenciam iniquidades estruturais no sistema de saúde que impactam diretamente a sobrevida dessas mulheres.

Fotografia de um grupo de sete pessoas, incluindo uma criança pequena, posando em frente à mesma tela de projeção da imagem anterior. O grupo é diversificado e todos estão sorrindo. Estão posicionados entre a tela e uma mesa de conferência. A iluminação é de escritório, com lâmpadas tubulares no teto. À esquerda, vê-se parte de uma bandeira oficial.
Família de Mariana acompanhou a banca. Orlando (tio), Luciana (madrinha), Miriam (mãe), Ana Júlia (sobrinha), Mariana, Elizabeth (tia) e Diama

Racismo estrutural como barreira ao acesso

Para a orientadora Diama Vale, a dissertação representa um marco na compreensão das desigualdades em saúde. “Minha linha de pesquisa tem foco nas políticas de prevenção de câncer, e em um certo momento eu percebi que eu não conseguiria entender os determinantes que influenciam o diagnóstico precoce do câncer de mama sem abordar profundamente a questão do racismo estrutural como uma barreira ao acesso. Os desfechos de mulheres pretas no câncer de mama apresentam indicadores muito desfavoráveis, e de forma consistente na literatura”, explicou a professora.

Diama conta que a parceria com a aluna foi fundamental para investigar o assunto. “A Mariana apareceu na minha vida acadêmica como um presente para que eu tivesse a oportunidade de aprofundar essa discussão. Ciente das minhas limitações sobre o tema, convidei o professor Eduardo Sodré (Faculdade de Enfermagem) para coorientá-la, e hoje já expandimos essa colaboração para outros projetos de pesquisa na mesma linha, com outros alunos de pós-graduação e iniciação científica”, disse.

A docente enfatiza que as cotas representam um avanço significativo. “Acredito que a Universidade cumpre o seu papel de promover a diversidade e equidade ao introduzir as cotas na pós-graduação, mas é bem mais do que isso. Quem realmente se beneficia nesse processo é a produção acadêmica, que se torna mais qualificada, com impactos mais acessíveis para a sociedade”, afirmou Diama.

Segundo a professora, a inclusão de acadêmicos com diferentes trajetórias fortalece a qualidade da ciência produzida. “Quando o pesquisador tem sensibilidade para escutar seus sujeitos de pesquisa e acolher suas demandas, através de referenciais teóricos diversos do que está habituado, a validação de seus resultados estará apoiada sob uma base mais sólida, e o pensamento crítico mais elevado”, concluiu.

Fotografia em plano médio de quatro pessoas em pé, lado a lado, em uma sala de reuniões ou auditório. Ao fundo, uma tela de projeção exibe o título de um trabalho acadêmico em português sobre determinantes do acesso ao diagnóstico de câncer de mama. Da esquerda para a direita: uma mulher de blusa verde claro e calça preta; uma mulher de blusa listrada e óculos; uma mulher de vestido preto e óculos; e um homem de paletó cinza e camiseta azul. Eles sorriem para a câmera. À frente deles, uma mesa de madeira com microfones e garrafas de água.
Com a banca avaliadora: Diama Vale, Mariana Almeida, Fernanda Surita e Edige Santos

Barreiras estruturais

“As barreiras são múltiplas e interligadas. Envolvem desde dificuldades de acesso geográfico e burocrático até falhas no encaminhamento dentro da rede de atenção. Além disso, há o racismo institucional, que se manifesta na desvalorização das queixas, na menor prioridade nos fluxos e na fragmentação do cuidado”, explicou Mariana. A pesquisadora destacou que essas mulheres enfrentam um sistema que exige delas mais tempo, insistência e deslocamentos para acessar o mesmo cuidado que outras recebem de forma mais rápida.

Mariana, que é fisioterapeuta formada pela Unesp e especialista em Fisioterapia Pélvica e Uroginecológica e Fisioterapia Intensiva, afirmou que assumir o compromisso de investigar a linha de cuidado dessas pacientes foi inicialmente um desafio. “Enquanto fisioterapeuta, não atuamos na linha de frente do primeiro acolhimento dessas mulheres, o que exigiu de mim um esforço adicional para compreender de forma aprofundada os fluxos do cuidado e as etapas do diagnóstico”, disse. Ela adicionou que a contribuição do coorientador Eduardo Sodré foi essencial na construção da discussão sobre raça.

Recomendações e políticas públicas

Segundo Mariana, pesquisa aponta a necessidade de mudanças urgentes em três níveis. Primeiro, fortalecer a Atenção Básica como coordenadora da linha de cuidado, garantindo encaminhamento rápido para exames diagnósticos com protocolos claros de prioridade e monitoramento do tempo de espera. Em segundo lugar, investir na formação permanente dos profissionais de saúde sobre racismo institucional e equidade racial, para qualificar a escuta e reduzir atrasos evitáveis. Por fim, é necessário que o Sistema Único de Saúde (SUS) produza, monitore e utilize dados desagregados por raça/cor de forma sistemática.

“Tratar igualmente populações que vivenciam desigualdades históricas distintas não promove justiça. Reduzir essas disparidades exige ações intencionais, contínuas e comprometidas com a equidade racial em saúde”, concluiu Mariana. A pesquisadora enfatizou que só é possível enfrentar essas disparidades quando elas são visibilizadas e acompanhadas ao longo do tempo. Esses dados devem orientar políticas públicas, metas institucionais e avaliação dos serviços. A implementação dessas estratégias interseccionais é fundamental para garantir acesso equitativo ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama.

Uma selfie em ângulo aberto (wide shot) tirada por um homem barbudo que sorri em primeiro plano à direita. Ao fundo, o grupo de pessoas das fotos anteriores aparece reunido próximo à tela de projeção, que agora mostra o texto espelhado devido ao ângulo da câmera. A foto captura uma visão mais ampla da sala, revelando uma mesa comprida com um notebook, papéis e garrafas de água, indicando a finalização de uma apresentação ou defesa acadêmica.
Da esquerda para direita, familiares e colegas do PPG: Larissa, Diama, Mariana, Ana Júlia, Elizabeth, Miriam, Luciana, Orlando, Elizabeth, Tânia, Iria e Guilherme

Trajetória e reconhecimento

A defesa tem um significado especial para Mariana, que cresceu em uma família historicamente engajada nas lutas do movimento negro em Campinas. Além disso, sua mãe trabalhou por anos como técnica de enfermagem no Hospital de Clínicas da Unicamp. “Estar aqui, agora como pesquisadora, foi também reconhecer o valor do trabalho dessas mulheres que sustentam a universidade todos os dias, mas raramente são vistas como produtoras de conhecimento”, refletiu. A mestranda destaca como referência direta seu tio Antônio Alves, que contribuiu ativamente para sua construção política e social, ajudando-a a compreender as desigualdades como processos históricos e estruturais.

Mariana também carrega a memória do tio Jamilson Alves, funcionário aposentado da Unicamp, que sempre a incentivou a estudar e a ocupar espaços que muitas vezes pareciam distantes. “Acredito que ele estaria radiante com essa conquista. Essa trajetória foi por todos, mas especialmente por ele”, declarou. A banca examinadora foi composta pela orientadora Diama Vale, pela professora Fernanda Surita e por Edige Santos, da USP.

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