A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde reprodutiva como o “estado de completo bem-estar físico, mental e social em todos os aspectos relacionados ao sistema reprodutivo e às suas funções, não se limitando à ausência de doença”. A saúde reprodutiva é um direito de todo ser humano, e engloba acesso adequado à contracepção, planejamento reprodutivo, cuidados adequados durante o pré-natal, parto e pós-parto, saúde sexual, entre outros aspectos relacionados à reprodução.
Dentro da saúde reprodutiva, a mortalidade materna é o pior desfecho possível e por si só já traduz explicitamente uma questão de gênero, que intersecciona com outros determinantes sociais como a cor da pele. É ainda um indicador da qualidade do cuidado obstétrico e consegue identificar problemas como demoras ou barreiras ao acesso ao cuidado, falta de disponibilidade de cuidado adequado, ou até mesmo prevalência aumentada de condições de maior gravidade clínica. A morte materna é evitável na maioria das vezes, especialmente se as condições que a determinam tiverem sido mapeadas, identificadas e resolvidas.
Nossos estudos no Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia têm reconhecido que a saúde reprodutiva é profundamente impactada pelas iniquidades presentes na sociedade brasileira, tanto as mais explícitas quanto as mais latentes. Apenas a partir do estudo sistemático do impacto que a inequidade relacionada à cor da pele traz nos cuidados em saúde, será possível buscar formas de combatê-lo e contribuir para a melhoria dos nossos serviços de saúde num contexto geral, e da saúde das pessoas, de forma individual.
A mortalidade materna carrega um importante determinante social, sendo que, entre as mulheres negras, a ocorrência de mortes tem sido consistentemente maior, traremos abaixo alguns estudos recentes sobre o tema.
Um artigo do doutorado da Amanda Dantas-Silva, avaliou as mortes maternas no Brasil entre 2017 a 2022, evidenciando que a razão de morte materna entre mulheres pretas foi 2 vezes maior que aquela observada entre mulheres brancas e pardas. Razões de morte materna aumentadas entre mulheres pretas foram observadas em todas as regiões do Brasil, em todas as faixas etárias, por todas as causas, e o aumento das mortes durante pandemia de COVID-19 foi uma lupa para evidenciar essas diferenças.
Desde seu mestrado, Amanda Dantas-Silva também apontou que, em uma coorte de mulheres com COVID-19, a frequência de morte entre mulheres negras foi significativamente maior que aquela observada entre mulheres brancas (7,8% vs 2,6%). As mulheres negras chegavam ao hospital com maior ocorrência de dessaturação, decorrente de maior frequência de síndrome respiratória aguda grave, e com consequente maior necessidade de admissão em unidade de terapia intensiva, sugerindo que as mortes maternas entre mulheres negras com COVID foram consequência de barreiras de acesso aos serviços de saúde, que levou estas mulheres a chegarem em fase mais avançada da doença, com maior ocorrência de falências orgânicas. Este mestrado recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2023.
A principal causa de morte materna no Brasil é hipertensão durante a gravidez, a análise dos 3.721 casos de óbito no ciclo reprodutivo que aconteceram no período de 2012 a 2023 foi estudada no mestrado da Deltharma Frantzia Dorcély que demonstrou a ocorrência de mortes maternas por hipertensão quase 3 vezes maior entre mulheres pretas do que entre mulheres brancas; 27% maior entre mulheres pardas do que entre brancas. Não havendo qualquer razão biológica que sustente que a hipertensão na gravidez seja mais grave entre mulheres pretas ou pardas, de tal forma que esta maior ocorrência de mortes só pode ser explicada em decorrência de determinantes sociais, como a dificuldade de acesso e de cuidado qualificado à saúde.
O aborto inseguro é uma situação que expõe mulheres ao risco de mortalidade, quer por ser realizado em condições precárias de assistência, quer por gerar receio, impedindo que busquem atendimento adequado quando se deparam com complicações associadas. O mestrado de Diniz de Meiroz Grillo Barbalho avaliou as 663 mortes maternas por aborto entre 2012 a 2022, e constatou que o rosto da mulher que morre de aborto ou é indígena ou é preto.
Mesmo entre adolescentes, observou-se que mulheres pretas tiveram maior ocorrência de mortes, tanto antes como após a pandemia de COVID-19, como demonstrado por Maitê dos Santos Borges em seu estudo de Mestrado. Este estudo recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos em 2025.
Além das questões relacionadas à mortalidade materna, a cor da pele tem papel importante em temas como o menor acesso à contracepção, cuidado obstétrico e maior risco de violência doméstica, problemas que impactam profundamente a saúde reprodutiva. Mulheres negras também apresentaram menor satisfação na assistência ao parto e menos acesso às cesarianas, segundo estudos ainda não publicados da Amanda Danta-Silva e da nossa aluna de graduação Fernanda Rafaella Corrêa dos Santos, respectivamente.
A questão do racismo estrutural precisa ser amplamente apontada, discutida e trabalhada com todas as pessoas, em todos os espaços, para que, ao ser reconhecido, o racismo seja enfrentado. O racismo estrutural na mortalidade materna se manifesta em dificuldades no acesso, na busca de cuidado, seja por distância, geográfica, custos, horário incompatível com o trabalho, falta de rede de apoio para pode cuidar de si ou mesmo por medo de um atendimento pouco respeitoso. Assim, quando rompida a barreira do acesso, pode haver outra barreira na valorização das queixas pelos profissionais de saúde e, com isso, consultas mais rápidas, menos acolhedoras, com menos explicações que vão impactar o cuidado em saúde. Isso é relatado em outro artigo do doutorado da Amanda Dantas-Silva, um estudo qualitativo que entrevistou mulheres negras após o parto aponta entre outras questões, para o fato delas não se sentirem ouvidas e não estarem adequadamente informados sobre os procedimentos por que iriam passar.
Superar o racismo institucional exige mais do que a conscientização individual — exige uma transformação estrutural, fundamentada em uma educação crítica e antirracista, tanto na formação da graduação médica quanto no desenvolvimento profissional contínuo. Esses processos educacionais não devem apenas abordar preconceitos implícitos e explícitos, mas também se engajar criticamente com os fundamentos históricos e sociopolíticos da desigualdade racial na saúde. Cabe aqui também citar a importância de ações inclusivas em todo o processo da formação médica, desde a entrada nos vestibulares, como o apoio na permanência estudantil durante cursos médicos ou qualquer outro, para ampliar as possibilidades de pessoas negras ocuparem espaços de cuidado em saúde e discussão de políticas públicas específicas.
Finalizando gostaria de sugerir a leitura de um editorial sobre o tema “Racism as a Social Determinant of Health in Brazil in the COVID-19 Pandemic and Beyond”, onde abordamos a importância de considerar as disparidades raciais na tomada de decisões para reduzir as inequidades em saúde. E de como a cor da pele deve ser levada em consideração dentro de um contexto histórico de discriminação, como uma variável complexa, que interfere nos resultados em saúde.
E trazer para a reflexão da nossa comunidade a famosa frase da Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista”.
Literatura sugerida:
Racial disparities and maternal mortality in Brazil: findings from a national database. Silva AD, Guida JPS, Santos DS, Santiago SM, Surita FG.Rev Saude Publica. 2024 Jul 5;58:25. doi: 10.11606/s1518-8787.2024058005862
Brazilian Black Women are at Higher Risk for COVID-19 Complications: An Analysis of REBRACO, a National Cohort. Dantas-Silva A, Surita FG, Souza R, Rocha L, Guida JP, Pacagnella R, Tedesco R, Fernandes K, Martins-Costa S, Peret F, Feitosa F, Traina E, Cunha Filho E, Vettorazzi J, Haddad S, Andreucci C, Correa Junior M, Dias M, Oliveira L, Melo Junior E, Luz M, Cecatti JG, Costa ML.
Maternal deaths due to hypertensive disorders of pregnancy in Brazil from 2012 until 2023: a cross-sectional populational-based study. Dorcély DF, Surita FG, Costa ML, de Siqueira Guida JP.Hypertens Pregnancy. 2025 Dec;44(1):2492094. doi: 10.1080/10641955.2025.2492094.
Maternal mortality rates due to abortion in Brazil: A 10-years analysis of national databases. Meiroz Grillo Barbalho D, Veiga-Junior NN, Cintra Baccaro LF, de Siqueira Guida JP.. Women Health. 2025 Nov 12:1-7. doi: 10.1080/03630242.2025.2587048. Epub ahead of print. PMID: 41222952
Effect of the COVID-19 pandemic on maternal mortality and cesarean section rates among brazilian adolescents, International Journal of Adolescence and Youth, Maite dos Santos Borges, Clarissa Suzart, Maria Paula Perroca Lipi, Fernanda Garanhani Surita, Diama Bhadra Vale & José Paulo de Siqueira Guida (2024) 29:1, 2387068, DOI: 10.1080/02673843.2024.2387068
Domestic violence: A cross-sectional study among pregnant and postpartum women. Sánchez ODR, Tanaka Zambrano E, Dantas-Silva A, Bonás MK, Grieger I, Machado HC, Surita FG.J Adv Nurs. 2023 Apr;79(4):1525-1539. doi: 10.1111/jan.15375.
Sociodemographic and reproductive characteristics of pregnant women with unplanned pregnancy residing in the state of São Paulo, Brazil: a cross-sectional study. Gallardo-Alvarado N, Antunes Lopes JV, Cecatti JG, Camas-Castillo M, Souza RT, Bahamondes L.Eur J Contracept Reprod Health Care. 2025 Jun;30(3):137-143. doi: 10.1080/13625187.2025.2457082
Black women perceptions regarding the birthing experience: A qualitative study. Dantas-Silva A, Sánchez ODR, Faria-Schützer DB, Santiago SM, Surita FG.Midwifery. 2025 Aug;147:104458. doi: 10.1016/j.midw.2025.104458.
Racism as a Social Determinant of Health in Brazil in the COVID-19 Pandemic and Beyond. Dantas-Silva A, Santiago SM, Surita FG.Rev Bras Ginecol Obstet. 2023 May;45(5):221-224. doi: 10.1055/s-0043-1770135
