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Da FCM à Itália, pesquisadora compartilha trajetória de internacionalização e aponta caminhos para evitar a ‘fuga de cérebros’

De volta ao Brasil, após dois períodos de pós-doutorado na Itália, pesquisadora formada pela FCM compartilha experiências internacionais, sua pesquisa sobre focos tumorais e reflete sobre os desafios de criar oportunidades para que cientistas qualificados permaneçam no país. 

Mulher branca de cabelos pretos lisos, amarrados em rabo da cavalo sorrindo, com jaleco branco, em laboratório.
Laboratório de Jacqueline almeida no Laboratório de Genética Molecular do Câncer (Gemoca) da FCM

Nesta reportagem, você vai ver:

  • A experiência de fazer pós-doutorado na Università di Pisa
  • Sequenciamento de nova geração e PCR digital
  • Contribuição inédita para investigação de tumores
  • Alternativas para a “fuga de cérebros”
  • Trajetória da pesquisadora, da bolsa ProUni até o pós-doutorado na Itália

Ir para outro país para fazer pesquisa não significou, para Jacqueline Fátima Martins de Almeida, apenas aprender novas técnicas ou trabalhar em um laboratório diferente. Além de ter fácil acesso a técnicas como PCR digital e Sequenciamento de Nova Geração, a experiência de quatro anos na Itália mudou também a maneira de pensar da cientista, egressa da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

Depois de concluir o mestrado em Clínica Médica e o doutorado em Ciências Médicas pela FCM, a pesquisadora seguiu para a Università di Pisa, onde realizou dois períodos de pós-doutorado e desenvolveu pesquisas sobre a origem genética de diferentes focos tumorais, uma contribuição científica inédita (saiba mais abaixo)

De volta ao Brasil, ela trouxe para o Laboratório de Genética Molecular do Câncer (Gemoca) da FCM novos conhecimentos, experiências de pesquisa e uma convicção sobre o significado da internacionalização: ela também pode ampliar a forma como um pesquisador enxerga a ciência.

“Quando a gente fala em internacionalização da pesquisa, não é só de bancada, de técnicas inovadoras, o que é muito importante, né? Mas tem também a parte de abrir a mente do pesquisador, porque nós aqui no Brasil, como cientistas, nós pensamos como brasileiros. Só quando eu fui para fora que eu percebi. Então, quando a gente vai para fora, a nossa mente abre, como pesquisador (…) A gente consegue ver a ciência de uma maneira diferente”, comenta a pesquisadora.

Pesquisadora visitante do Gemoca, Jacqueline compartilhou sua trajetória durante um ciclo de palestras realizado nos dias 13 e 14 de agosto, no Salão Nobre da FCM. A atividade integrou seu plano de interstício do CNPq, desenvolvido após a experiência de pós-doutorado na Università di Pisa, com atividades no Ospedale Cisanello. Os encontros abordaram seu percurso acadêmico, a internacionalização da pesquisa e a construção de um olhar molecular sobre o câncer.

Sequenciamento de nova geração e PCR digital

A oportunidade de ir para a Itália estava ligada a uma parceria construída a partir da FCM. Jacqueline desenvolveu sua formação acadêmica no Gemoca, onde realizou iniciação científica, mestrado e doutorado, sob orientação da professora Laura Ward, do Departamento de Clínica Médica da FCM. Foi também por meio de um contato entre a pesquisadora e o grupo italiano que surgiu a possibilidade de dar continuidade à linha de pesquisa no exterior.

Na Itália, Jacqueline encontrou um ambiente que permitia o acesso cotidiano a equipamentos, técnicas e insumos. Isso não significa que a tecnologia não exista no Brasil. A diferença, segundo ela, está nas possibilidades de acesso e treinamento.

Uma das experiências foi com o sequenciamento de nova geração, ou NGS, uma tecnologia avançada que permite analisar rapidamente grandes quantidades de DNA de uma só vez, além da PCR digital. O contato frequente com essas técnicas permitiu acelerar seu aprendizado e, posteriormente, trazer esse conhecimento para o laboratório na FCM.

De volta ao Gemoca, Jacqueline passou a compartilhar parte desse conhecimento com o grupo. Para ela, uma das contribuições da experiência internacional está justamente na possibilidade de fazer o aprendizado circular.

Contribuição inédita para a investigação de tumores

A internacionalização da trajetória de Jacqueline também está diretamente ligada à pesquisa que desenvolve na área de câncer. Na Itália, seu trabalho se concentrou no carcinoma medular multifocal da tireoide, uma condição rara

A pesquisa buscou compreender a origem genética dos diferentes focos tumorais encontrados nos pacientes e responder a uma questão central: eles eram tumores independentes ou tinham uma mesma origem?

O estudo mostrou que os focos analisados derivavam de um mesmo tumor original e apresentavam o mesmo perfil genético. A resposta pode contribuir para compreender melhor o perfil genético da doença e, futuramente, auxiliar no direcionamento de tratamentos. 

“Nós descobrimos que não eram tumores diferentes, eram todos derivados do mesmo tumor original. Esse tumores são chamados de monoclonais, pois eles tinham o mesmo perfil genético daqueles tumores primários”, explicou a pesquisadora. 

Segundo Jacqueline, o resultado representou uma contribuição inédita para a literatura sobre esse tipo específico de tumor e foi publicado a partir da parceria entre a pesquisa desenvolvida na Itália e sua trajetória científica na Unicamp.

Texto Alternativo (Alt Text):

Uma imagem dividida ao meio mostrando duas cientistas trabalhando em um laboratório. À esquerda, uma mulher de jaleco branco, máscara e luvas azuis está inclinada observando uma amostra em um microscópio de bancada. À direita, outra mulher de jaleco branco e luvas azuis manuseia uma micropipeta para transferir líquido para um pequeno tubo de ensaio.
À esquerda, Jacqueline em laboratório da Università di Pisa (Itália); à direita, pesquisadora no Gemoca, na FCM.

‘Abriu a minha mente’

As transformações mais importantes da experiência internacional, porém, não ficaram restritas à bancada. Para Jacqueline, a convivência com pesquisadores de outras culturas e contextos científicos permite perceber que a forma de pensar e fazer ciência também é influenciada pelo lugar de onde se olha para o mundo.

Essa abertura, segundo ela, se reflete em diferentes etapas do trabalho científico: na escrita, na construção de novos projetos e na capacidade de enxergar outras possibilidades de pesquisa.

“Isso melhora a escrita, melhora a construção de projetos, de novos projetos, de possibilidades. Então, você consegue pensar muito maior, querer mais”, conta Jacqueline.

Durante os períodos de pós-doutorado, essa experiência também resultou em novas publicações e no desenvolvimento de habilidades relacionadas à escrita científica. O primeiro pós-doutorado gerou duas publicações; o segundo, outras cinco.

Fuga de cérebros

Mas a internacionalização também levanta uma questão que Jacqueline conhece de perto: o que acontece quando pesquisadores altamente qualificados voltam ao país?

Depois de uma experiência no exterior, as oportunidades profissionais podem ser diferentes das encontradas no Brasil. Para a pesquisadora, incentivar a formação internacional e pedir o retorno desses profissionais não é suficiente se não houver condições para que possam continuar contribuindo com a ciência no país.

“Eu concordo que quando a gente recebe uma bolsa de pós-doutorado do governo, a gente tem que voltar e realmente utilizar isso em prol de toda essa internacionalização, para trazer e aplicar aqui no nosso país. Isso é totalmente correto. O problema é que nós não temos respaldo para ficar aqui no Brasil”, argumenta a pesquisadora. 

A discussão se conecta ao fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”: pesquisadores que, diante da falta de oportunidades, acabam encontrando fora do país condições mais favoráveis para desenvolver suas carreiras.

Jacqueline defende que a internacionalização seja acompanhada por políticas capazes de criar caminhos de reinserção para esses profissionais. Afinal, trazer pesquisadores de volta significa também garantir que o conhecimento, as experiências e as redes construídas internacionalmente possam encontrar continuidade no Brasil.

“Essa essa fuga de cérebros seria contida se tivéssemos políticas que realmente respaldassem o programas de reinserimento dessas pessoas aqui”, diz a pesquisadora. 

Do ProUni à pesquisa internacional

Imagem dividida ao meio com duas fotos de uma cientista em um laboratório. À esquerda, a mulher de jaleco branco e luvas azuis está inclinada sobre a bancada usando uma micropipeta para manipular amostras em um suporte azul. À direita, ela aparece em pé, sorrindo para a câmera, apoiada na bancada do laboratório com os equipamentos de pesquisa ao fundo.
Jacqueline Almeida no Gemoca, na FCM.

A história da pesquisadora começou muito antes da FCM e da experiência na Itália. Jacqueline cursou Biomedicina em uma universidade particular com bolsa ProUni. Sem condições de pagar pela graduação, precisou disputar oportunidades para seguir estudando. Depois, continuou sua formação acadêmica com bolsas e avançou até chegar ao mestrado, ao doutorado e, posteriormente, aos dois períodos de pós-doutorado no exterior.

Ao contar essa trajetória durante as palestras, Jacqueline transformou sua própria experiência em uma mensagem para estudantes que estão começando a construir uma carreira científica.

“Eu consegui chegar até aqui. Fiz bolsa ProUni, porque eu não tinha dinheiro para pagar faculdade. Fiz o mestrado com bolsa, sempre lá lutando para ficar entre os primeiros para conseguir a bolsa, que sem bolsa eu não conseguia só sobreviver. Terminei já dois pós-doutorados. Então, se eu consegui, vocês também vão conseguir e não desistam”, celebrou Jacqueline.


Sobre o Gemoca

O Laboratório de Genética Molecular do Câncer (Gemoca) da Unicamp investiga os mecanismos moleculares e genéticos envolvidos no surgimento e na progressão dos tumores, com foco especial no câncer de tireoide. Por meio de pesquisas avançadas, busca identificar biomarcadores para o diagnóstico precoce, o prognóstico e o desenvolvimento de novos tratamentos, além de estudar a influência de fatores ambientais e do estilo de vida no câncer. O laboratório também contribui para a formação de pesquisadores e promove ações educativas, aproximando o conhecimento científico da sociedade.

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