Quatro docentes do Departamento de Tocoginecologia integram grupo de autores das novas diretrizes do Ministério da Saúde que recomendam teste de DNA-HPV como método principal
Em 11 de dezembro foram publicadas as Diretrizes do Rastreamento do Câncer do Colo do Útero do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e Ministério da Saúde. O volume 1 da 3ª edição apresenta o rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. Do total de 15 autores, quatro são do Departamento de Tocoginecologia (DTG) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp: Diama Vale, Joana Bragança, Júlio César Teixeira e Luiz Carlos Zeferino.
Diama Vale, uma das autoras, explica que o documento introduz uma mudança fundamental na estratégia de rastreamento no país. “A principal alteração é a introdução do teste de HPV como estratégia de rastreamento primário em substituição à citologia (Papanicolaou), além de apresentar os princípios para a implementação de um rastreamento organizado no SUS”, afirma.
Evidências científicas e pesquisa nacional
A recomendação do teste de DNA-HPV como método principal tem respaldo científico internacional consolidado. Segundo a pesquisadora, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica o teste de HPV como superior à citologia desde 2016. No entanto, a implementação no Brasil dependia de dados nacionais específicos.
“O Ministério da Saúde condicionou a incorporação do teste à existência de uma análise de custo-efetividade com dados brasileiros”, explica a docente. Para atender a essa demanda, o grupo de pesquisa do professor Luiz Carlos Zeferino desenvolveu um projeto em parceria com a cidade de Indaiatuba. “O projeto foi coordenado pelo professor Júlio César Teixeira e, entre outros resultados, apresentou os dados de custo-efetividade solicitados pelo Ministério para que o processo de incorporação ocorresse”, detalha.
O acompanhamento com o Ministério da Saúde, incluindo a publicação das diretrizes, foi realizado pelos professores Teixeira e Vale, que também participaram da elaboração de manual voltado a gestores do SUS.

Desafios da implementação
Apesar do avanço, a professora aponta obstáculos para a implementação efetiva do rastreamento organizado. “O principal desafio hoje é a implementação de um sistema de informação que tenha o registro de todas as mulheres-alvo para que sejam convocadas individualmente, o que garantiria a equidade no rastreamento, como acontece em alguns países da Europa e Austrália”, observa. Ela acrescenta que é necessária uma rede de assistência articulada com responsabilizações bem definidas.
Benefícios do novo método
Uma mudança importante trazida pelas diretrizes é o aumento do intervalo entre os exames. Vale explica que essa alteração tem base em evidências científicas sólidas. “O teste de HPV tem um valor preditivo negativo muito elevado e superior ao da citologia. Isso significa que uma mulher com resultado negativo no teste de HPV tem um risco insignificante de desenvolver uma lesão pré-câncer no intervalo recomendado, que é de cinco anos”, esclarece.
Segundo a docente, essa mudança facilita tanto o gerenciamento do programa quanto a adesão das mulheres, que passam a ter mais confiança no processo.
Equidade e direitos humanos
As novas diretrizes representam um avanço ao incluir recomendações específicas para populações em maior situação de vulnerabilidade. “É um avanço significativo em relação às últimas diretrizes porque nós amadurecemos muito nos últimos anos em relação à proteção dos Direitos Humanos na área da saúde, com a necessidade de explicitar que as ações em saúde devem acontecer segundo os princípios da equidade”, ressalta Vale.
O documento elenca ações específicas para facilitar o acesso, adesão e resolutividade das mulheres em situação de vulnerabilidade e da comunidade LGBTQIA+ elegíveis para o rastreamento.
O papel da universidade pública
Para a professora Diama Vale, a participação da Unicamp na construção de políticas públicas de saúde reflete a missão essencial da universidade pública. “A missão mais importante da universidade é a produção de conhecimentos voltados para a resolução de problemas da comunidade e o desenvolvimento da sociedade”, afirma.
“Quando a universidade dialoga com os órgãos executivos como o Ministério da Saúde para produzir políticas públicas, está retornando para a sociedade todo o investimento na construção de um conhecimento que tenha aplicabilidade e que, no caso dessas diretrizes, preserve a vida das pessoas a partir de práticas baseadas na ciência”, conclui a docente.
