No primeiro dia (31) da Semana da FCM, a Faculdade de Ciências Médicas recebeu no período da manhã curso sobre letramento racial. Denominado “Saúde da população negra: perspectivas historicossociais”, a sessão foi realizada pela Comissão de Igualdade Racial. O historiador Jones Manoel falou sobre o tema, que teve como moderadores os estudantes de graduação em Medicina, Marília Isabel Araújo da Silva e Pedro Henrique Ramos da Silva.
Segundo Jones, o Brasil aboliu a escravidão deixando a população negra sem acesso à terra, educação e oportunidades econômicas. A ideologia racista que imperou nos séculos XIX e XX justificou a exclusão dos negros do mercado de trabalho formal, relegando-os a empregos precários, o que refletiu diretamente na questão da saúde. Atualmente, cerca de 75% dos usuários do SUS são negros, sendo os que mais sofrem com a falta de acesso a serviços de qualidade e a negligência médica.




Fotos: Marcelo Oliveira/ARPI
“Enquanto a população negra viver no regime de superexploração da força do trabalho, com a economia brasileira dominada por uma classe que transfere suas riquezas para fora, numa situação de cada vez mais degradação dos direitos trabalhistas, vocês, futuros médicos e médicas, vão ter que remar contra a corrente para reduzir danos. Hoje, 38% da força de trabalho brasileira está em postos informais, numa média 14 horas de trabalho. A gente tem aqui um problema político. O racismo é uma estrutura fundamental para manter esse regime de desigualdade”, declarou o historiador.
Jones adicionou que determinantes sociais como a pobreza, acesso a saneamento básico e estresse crônico impactam diretamente a saúde dessa população, que sofre, ainda, com uma medicalização excessiva e falta de políticas públicas específicas para doenças prevalentes. Por fim, o historiador criticou a fragmentação do movimento negro e da esquerda por não conectar lutas raciais a um projeto político nacional transformador. Também enfatizou a necessidade de um combate ao racismo institucional na formação médica e na assistência à saúde.
Abertura oficial
No final da tarde, ocorreu a abertura oficial. O diretor associado da FCM, Erich de Paula, deu as boas-vindas. “Esse momento é fruto do trabalho e dedicação de toda a equipe da FCM, que gostaria de reconhecer publicamente. Há meses, eles se empenham para organizar este evento, assim como nossos colegas que ajudaram a construir a programação e trarão discussões importantes para todos nós”.
Em seguida, houve a palestra “Conheça a história da nossa FCM”, com o professor Rubens Bedrikow, Coordenador de Extensão e Assuntos Comunitários e membro do Grupo de Estudos de História da Ciência da Saúde. Também falou Zaíra Gonçalves Toledo Serra, discente do curso de Medicina.
Rubens falou sobre a importância de preservar a memória da FCM, mencionando o Centro de Memória e os livros comemorativos dos 40 e 50 anos da faculdade. Destacou eventos históricos, como a criação da FCM, em 1963, antes mesmo da Unicamp, e a atuação de figuras como o primeiro diretor, Antônio Augusto de Almeida.
Zaíra relatou sua experiência na iniciação científica ao entrevistar ex-alunos das primeiras turmas da FCM, revelando histórias não oficiais, como as aulas suspensas durante a ditadura. Falou sobre a importância da medicina social desde a fundação da FCM e como os desafios do passado ecoam no presente, como a luta pela manutenção do SUS – a exemplo do que vem ocorrendo com o Hospital Estadual Sumaré.
A última palestra do dia, “Vida hiperconectada, processos educacionais, juventude e saúde mental”, foi ministrada pelo professor Paulo Dalgalarrondo, do Departamento de Psiquiatria. O docente discutiu o aumento dos índices de ansiedade, depressão e suicídio entre os jovens. Abordou o fenômeno do autodiagnóstico e das identidades psicopatológicas, como TDAH e autismo, impulsionados pelas redes sociais. Refletiu sobre como a psiquiatria, antes rejeitada, agora é apropriada pelos jovens como forma de identidade.
À noite, tomou sede na área externa da FCM, próximo à mangueira, o coquetel de abertura. A banda A Ladeira apresentou repertório recheado de ritmos brasileiros, como forró, xote e MPB.

Banda A Ladeira. Foto: Marcelo Oliveira/ARPI
Semana da FCM
De 31 de março a 04 de abril de 2025, ocorre a I Semana da FCM, evento dedicado à reflexão e ao debate sobre temas fundamentais para o desenvolvimento da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. São abordados assuntos como ensino, pesquisa, extensão, pós-graduação e outras questões relevantes para a comunidade acadêmica, numa programação diversificada e atrativa preparada para garantir a participação e o engajamento de toda a comunidade: docentes, discentes e colaboradores.