Conteúdo principal Menu principal Rodapé
Ano 2026, Volume 14, nº 1: Ensino de Medicina Boletim FCM (ISSN: 2595-9050) Entre-letras

Reflexões sobre o ensino de Psiquiatria: discurso do professor Amilton dos Santos Junior na cerimônia de encerramento da Residência na especialidade

Foto de grupo em auditório institucional. Cerca de 25 a 30 pessoas posam em duas fileiras, algumas em pé e outras agachadas na frente, olhando para a câmera. Ao fundo há uma mesa de conferência, um telão branco e três bandeiras — do estado de São Paulo, do Brasil e da Unicamp. À direita da mesa há um vaso com orquídeas. O ambiente tem iluminação de teto e paredes em tons claros e verdes. Algumas pessoas seguram sacolas de papel, sugerindo participação em evento ou cerimônia.

Campinas, 27 de fevereiro de 2026.

Colegas, professores, familiares, parcerias, amigos,

Queridas(os) novas(os) psiquiatras,

A Psiquiatria não é apenas uma especialidade.

Ela é uma decisão de permanecer diante da fragilidade humana.

Vocês escolheram trabalhar onde a palavra, muitas vezes, ainda não nasceu, ou nem nascerá, e onde, às vezes, a memória já se desfaz.

Vocês escolheram trabalhar com o tempo do humano.

A Psiquiatria é, profundamente, a medicina da trajetória. Não cuida apenas de episódios, surtos, fases. Ajuda, outrossim, a manejar percursos. Não intervém apenas em crises. Acompanha narrativas pessoais e coletivas.

O sofrimento psíquico inscreve-se em indivíduos, mas também em histórias familiares, contextos sociais e memórias culturais. Cuidar, em Psiquiatria, é estar diante de narrativas interrompidas, de biografias que perderam coerência, de trajetórias que precisam ser reorganizadas.

Muitas vezes, isso é feito por meio de algo que parece invisível: o silêncio.

A Psiquiatria é também a prática do silêncio.

Silêncio que contém sem invadir.

Silêncio que permite que o pensamento emerja.

Silêncio que sustenta o sofrimento sem apressar sua resolução.

Nem todo silêncio é ausência de intervenção. Às vezes, é a intervenção mais sofisticada.

Mas a Psiquiatria é também a prática da escuta e da palavra. A escuta que legitima. A palavra que organiza. A formulação que devolve sentido.

Em situações de crise, uma intervenção verbal precisa pode ser tão terapêutica quanto qualquer medicação. Ou mais.

Há momentos em que o manejo técnico é indispensável — mas há outros em que é a escuta qualificada que impede a ruptura, contém o desespero e restaura minimamente a continuidade psíquica.

Na primeira infância, o sofrimento não vem em frases organizadas.
Vem no corpo que não se regula, no vínculo que não se estabelece, no desenvolvimento que não segue o esperado.  Ali, o psiquiatra não escuta apenas sintomas — escuta relações. Intervir cedo demais pode patologizar o que é variação. Intervir tarde demais pode significar perder uma janela decisiva. A clínica exige prudência e delicadeza.

Na infância e adolescência, a mente está em construção. Identidade, sexualidade, trajetórias de gênero, pertencimento, impulsividade. O sofrimento pode aparecer como ato, desafio, silêncio ou risco. Aqui, o psiquiatra precisa sustentar estrutura sem moralismo, contenção sem violência simbólica e escuta sem condescendência.

Na vida adulta, o sofrimento frequentemente se mistura às expectativas de desempenho. Trabalho, fracasso, amor, responsabilidade, culpa. A depressão pode parecer exaustão.
A ansiedade pode parecer produtividade. A psicose pode romper uma biografia aparentemente estável. O psiquiatra precisa distinguir doença de desamparo — sem banalizar nenhum dos dois.

Na velhice, a Psiquiatria encontra o tempo acumulado. Lutos sucessivos. Fragilidade biológica. Declínio cognitivo possível – mas nem sempre inevitável.

Nem toda tristeza é depressão. Nem todo esquecimento é demência. Às vezes, é.
Aqui, a clínica exige ponderação: o que tratar? O que aliviar? O que acompanhar com dignidade? Muitas vezes, emerge também a necessidade de uma revisão de vida — a tentativa de integrar passado, perdas e legado em uma narrativa coerente.

Vocês foram formados para reconhecer essas nuances.

Quando os contornos diagnósticos não são perfeitamente delimitados — e frequentemente não são — isso não significa ausência de sofrimento. Há uma dimensão de pathos a ser abordada. A clínica exige discernimento axiológico: reconhecer valores em jogo, conflitos éticos, significados implicados.

A Psiquiatria inscreve-se no campo da medicina baseada em evidências — rigorosa e metodologicamente sólida, comprometida com dados, ensaios clínicos, revisões sistemáticas.
Mas ela é, igualmente, medicina baseada em valores.

Evidências orientam decisões.

Valores orientam escolhas.

Reduzir a Psiquiatria apenas à evidência é empobrecê-la.

Ignorar a evidência em nome de valores é fragilizá-la.

A maturidade clínica está na integração entre ambas.

Vocês herdam essa tensão:

Entre classificar e compreender;

entre intervir e respeitar;

entre proteger e limitar;

entre biologia e história;

entre fatos e valores.

A Psiquiatria confere poder.

Poder de internar.

Poder de alterar a consciência.

Poder de definir capacidade.

Mas sua maturidade profissional será medida pela consciência do limite desse poder — especialmente nas extremidades da vida, onde autonomia é frágil e dependência é estrutural.

A Psiquiatria é a medicina da ambiguidade.

E é também a medicina da trajetória.

O que é desenvolvimento atípico e o que é diferença?

O que é crise adolescente e o que é transtorno?

O que é tristeza diante da perda e o que é depressão maior?

O que é envelhecimento natural e o que é patologia?

Não há exame que resolva sozinho essas perguntas.

Há método.

Há escuta.

Há silêncio.

Há palavra.

Há responsabilidade.

E há também o trabalho em equipe. A Psiquiatria não se sustenta no isolamento do especialista. Ela se constrói no diálogo com psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, profissionais de educação física, fonoaudiólogos, farmacêuticos, clínicos e tantos outros que compartilham o cuidado. A complexidade do sofrimento psíquico exige múltiplos olhares. Trabalhar em equipe multiprofissional não diminui a responsabilidade do psiquiatra — ao contrário, amplia sua maturidade clínica, exige humildade epistêmica e fortalece o cuidado integral.

Vocês aprenderam protocolos, guidelines, farmacologia avançada. Isso é indispensável. A Psiquiatria é ciência rigorosa. Mas ela não se esgota na biologia. Porque o que vocês tratam não é apenas cérebro — é biografia.

Nossa formação não é privada. Ela é sustentada pela população.
É o Sistema Único de Saúde que financia nossos ambulatórios, enfermarias, professores, preceptores e bolsas.

Cada paciente atendido durante esses anos não foi apenas um caso clínico.
Foi um pacto social. É a população brasileira quem paga nossa formação.
E é a ela que devemos competência, ética e compromisso.

Hoje celebramos os oito novos psiquiatras, seis novos psiquiatras de infância e adolescência e dois novos psicogeriatras.

A partir de hoje, a assinatura será de vocês.

O julgamento clínico será de vocês.

A responsabilidade que hoje assumem não é apenas técnica.

É histórica.

É ética.

É pública.

Que a prática de vocês esteja à altura dessa responsabilidade.

12 jun 25

O Conselho Federal de Medicina e a proibição de terapia hormonal para jovens com incongruência e/ou disforia de gênero

Impedir o uso desses medicamentos em qualquer circunstância fora do tratamento de puberdade precoce inviabiliza projetos de pesquisa clínica e compromete o desenvolvimento científico nacional.
O Conselho Federal de Medicina e a proibição de terapia hormonal para jovens com incongruência e/ou disforia de gênero
Ir para o topo