O Ambulatório LGBT60+ do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) nasceu do encontro entre escuta, inquietação e compromisso ético com populações historicamente invisibilizadas nos serviços de saúde. Sua criação representa um marco pioneiro no Brasil ao oferecer atenção especializada e integral à população LGBT+ com 60 anos ou mais.
A concepção do ambulatório surgiu a partir da experiência clínica e acadêmica do professor André Fattori e de sua equipe no campo da geriatria e gerontologia. Ao longo dos anos, tornou-se evidente uma ausência inquietante: apesar da diversidade presente na sociedade, raramente pessoas idosas se autodeclaravam LGBT+ nos serviços de saúde. Esse silêncio não significava inexistência, mas refletia histórias marcadas pelo medo da discriminação, pelo apagamento institucional e por experiências anteriores de violência e exclusão.
Compreendeu-se, então, que não bastava esperar que essas pessoas chegassem aos serviços tradicionais. Era necessário construir um espaço seguro, ético e acolhedor, capaz de reconhecer as singularidades das trajetórias de vida LGBT+ no envelhecimento e oferecer cuidado comprometido com dignidade, escuta e respeito.
O Ambulatório LGBT60+ foi criado articulando assistência, ensino, pesquisa e extensão universitária, reunindo profissionais, estudantes e pesquisadores comprometidos com uma clínica ampliada e interdisciplinar. Desde o início, o serviço assumiu como princípio fundamental a escuta qualificada das narrativas de vida, reconhecendo que o cuidado em saúde não pode se limitar a protocolos biomédicos, mas precisa considerar afetos, memórias, contextos sociais, experiências de violência, resistência e sobrevivência.
Os primeiros atendimentos revelaram desafios importantes. Muitas pessoas chegavam ao ambulatório após décadas ocultando sua orientação sexual ou identidade de gênero como estratégia de proteção. Outras traziam marcas profundas da epidemia de HIV/AIDS, lutos não reconhecidos, rupturas familiares, isolamento social e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Tornou-se evidente que não existia uma única velhice LGBT+, mas múltiplas formas de envelhecer atravessadas por gênero, sexualidade, raça, classe, geração e território.
Ao longo de sua trajetória, o ambulatório consolidou-se como espaço de cuidado integral, acolhimento e produção compartilhada de conhecimento. Mais do que um serviço especializado, tornou-se lugar de pertencimento, encontro e reconhecimento para pessoas que historicamente tiveram suas experiências silenciadas.
As rodas de conversa, os momentos de convivência, o café compartilhado, os vínculos construídos entre usuários e equipe e a valorização das histórias de vida passaram a integrar o próprio processo terapêutico. No Ambulatório LGBT60+, o cuidado é compreendido como prática ética, afetiva e coletiva, sustentada pelo diálogo, pela corresponsabilidade e pelo reconhecimento da alteridade.
A experiência do Ambulatório LGBT60+ reafirma o compromisso da universidade pública e do Sistema Único de Saúde (SUS) com a equidade, os direitos humanos e a produção de práticas de saúde inclusivas. Ao tornar visível o envelhecimento LGBT+, o ambulatório contribui para transformar não apenas os modos de cuidar, mas também os modos de compreender a velhice, a diversidade e a própria produção da saúde.

