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Pesquisadora da FCM cria guia prático de alimentação para pacientes com câncer; acesse aqui

Material produzido em Mestrado Profissional em Oncologia traduz conhecimento científico em orientações sobre alimentação, segurança dos alimentos, manejo de sintomas e receitas, além de combater a desinformação propagada nas redes

Uma montagem de fotos de comida ladeada por produtos frescos. À esquerda e à direita estão abundantes vegetais e frutas crus dispostos em uma rústica superfície de madeira. O centro apresenta uma foto vertical de pratos gourmet servidos em um tampo de mesa de mármore branco. No terço inferior da imagem central, um texto em português diz: "Alimentação em Oncologia: Orientações Práticas para Pacientes e Familiares". Uma pequena atribuição de imagem no canto inferior esquerdo diz: "Fonte: AlexRaths (Getty Images Pro)".

Para quem está em tratamento contra o câncer, a pergunta “o que você vai comer hoje?” pode ser muito mais complexa do que parece. O próprio câncer já traz uma série de alterações no funcionamento do organismo que podem dificultar a alimentação. Somam-se a isso os efeitos da terapia e a enxurrada de desinformação que circula na internet.

Buscando orientar escolhas alimentares seguras durante o tratamento oncológico, a nutricionista Ananda Giovana Cabral Silva criou a cartilha “Alimentação em Oncologia: Orientações Práticas para Pacientes e Familiares”. O material é fruto de sua dissertação no Programa de Pós-Graduação em Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, orientado pela professora Maria Carolina Santos Mendes e co-orientado pelo professor José Barreto Campello Carvalheira.

Escrito em linguagem acessível, o guia foi elaborado a partir de perguntas como “O que eu posso comer durante o tratamento?”, “O que devo evitar?”, “Como faço se estiver enjoado, sem apetite ou com alteração no paladar?”, de forma a traduzir o conhecimento científico a toda a população. Alinhada ao Guia Alimentar para a População Brasileira, a cartilha resume as orientações em dez passos práticos para o dia a dia do paciente:

  1. Priorize alimentos in natura ou minimamente processados.
  2. Utilize óleo, sal e açúcar em pequenas quantidades.
  3. Limite o consumo de alimentos processados.
  4. Evite alimentos ultraprocessados.
  5. Alimente-se devagar e com atenção.
  6. Compre alimentos em feiras livres, sacolões e diretamente do produtor.
  7. Cozinhe: aprenda e compartilhe habilidades culinárias.
  8. Planeje o tempo para preparar as refeições.
  9. Prefira refeições feitas na hora.
  10. Seja crítico com mitos e com a publicidade enganosa sobre alimentação.

O guia também fala sobre como escolher a procedência dos alimentos, como higienizá-los e armazená-los; traz exemplos de que alimentos evitar (como queijos mofados ou fungados); combate mitos ligados ao açúcar, ressalta a importância da nutrição individualizada, segundo os sintomas; e ainda traz uma série de receitas práticas, de salgados a bebidas e sobremesas, como o picolé de abacaxi com couve (veja mais abaixo).

Acesse a cartilha aqui. 

Risco de desnutrição

A desnutrição ocorre quando o corpo não recebe ou não consegue aproveitar bem os nutrientes de que precisa. Isso pode causar perda de peso, fraqueza e perda de músculo.

“O tumor pode liberar substâncias que diminuem o apetite, alteram a sensação de fome e fazem o organismo gastar energia de uma forma diferente. Com isso, o paciente pode perder peso e massa muscular mesmo tentando se alimentar”, explica a nutricionista.

Entre 10% e 20% das mortes relacionadas ao câncer podem ser atribuídas à desnutrição. Por isso, preservar o estado nutricional ao longo do tratamento é tão importante.

A situação pode se agravar quando surgem os efeitos adversos das terapias, como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapia-alvo. Alguns sintomas podem surgir ou outros se intensificar.

“Às vezes o paciente não sente fome, em outros momentos o cheiro da comida causa enjoo, o sabor muda ou existe dor para comer. […] Então, algo que parece simples, como sentar e fazer uma refeição, pode se tornar muito difícil”, comenta Ananda.

Juntos, os sintomas do câncer e do tratamento aumentam o risco de desnutrição, o que pode comprometer a tolerância aos próprios tratamentos, a recuperação após cirurgias e a qualidade de vida do paciente.

O papel do nutricionista no tratamento

Em uma vista superior, duas mãos com unhas rosa claro seguram talheres dourados: um garfo à esquerda e uma faca à direita. Os talheres estão posicionados nas laterais de um prato branco redondo vazio, que tem um grande ponto de interrogação preto centralizado nele. O fundo é branco.
Fonte: Africa Images

Para tratar do risco à desnutrição e adaptar a dieta às condições de cada paciente, é importante ter um acompanhamento com um nutricionista.

“O nutricionista tem um papel importante justamente porque cada paciente pode vivenciar o tratamento de uma maneira diferente. A alimentação precisa acompanhar essas mudanças”, destaca a pesquisadora.

Ao contrário do que muita gente pode pensar, a orientação de um nutricionista não se resume a indicar quais alimentos devem ou não fazer parte da dieta. Em determinados momentos, o profissional pode precisar adaptar a consistência, a temperatura, o volume ou a frequência das refeições.

Por isso, o nutricionista é tão importante para o cuidado do paciente e deve ser valorizado. O profissional pode avaliar o estado nutricional e elaborar estratégias alimentares adequadas às necessidades de cada pessoa.

Para relembrar a relevância desses profissionais, em 31 de agosto é celebrado o Dia do Nutricionista. A data coincide com a criação da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), em 1949.

Da dissertação à cartilha

Ananda é nutricionista e atua há cerca de oito anos na área de oncologia. Ao longo desse período, percebeu que algumas dúvidas apareciam repetidamente entre os pacientes.

“O que eu posso comer durante o tratamento?”, “O que devo evitar?”, “Como faço se estiver enjoado, sem apetite ou com alteração no paladar?” são algumas das perguntas ouvidas frequentemente pela nutricionista. 

Segundo a pesquisadora, o acesso ao acompanhamento nutricional especializado nem sempre é possível. Ela comenta que a grande demanda dos serviços públicos de saúde pode dificultar o acompanhamento regular com um nutricionista especializado em oncologia.

Foi nesse contexto que surgiu a proposta de produzir um material que pudesse oferecer informações confiáveis para pacientes e familiares, mesmo quando uma consulta individualizada não estivesse disponível. Assim nasceu a cartilha “Alimentação em Oncologia: Orientações Práticas para Pacientes e Familiares”.

A oportunidade surgiu durante o Mestrado Profissional em Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, no qual Ananda desenvolveu sua dissertação intitulada “Prognóstico da desnutrição e da caquexia em pacientes com câncer gástrico ressecável: aplicação dos critérios GLIM e Fearon combinado com a razão neutrófilo-linfócito”.

Imagem dividida em duas partes lado a lado. Na imagem da esquerda, uma mulher sorridente de cabelos escuros cacheados, óculos e jaleco branco está em pé diante do prédio do Hospital de Clínicas. Na imagem da direita, a mesma mulher discursa em um púlpito no evento CONCAN 25, identificada como Ananda Giovana Cabral, diante de um telão com a apresentação "A Desnutrição ao diagnóstico de Câncer".
Ananda Giovana Cabral Silva em frente ao Hospital das Clínicas, na Unicamp; e Ananda apresentando sua pesquisa no Congresso Brasileiro de Cancerologia.

Seu mestrado foi orientado pela Profa. Dra. Maria Carolina Santos Mendes e coorientado pelo Prof. Dr. José Barreto Campello Carvalheira. Na pesquisa, Ananda investigou como a desnutrição e caquexia associadas ao tipo de câncer de estômago que pode ser removido por cirurgia (câncer gástrico ressecável) estão relacionadas à evolução da doença.

Caquexia pode ser um termo novo para muitos. Ao contrário da desnutrição, ela não ocorre por falta de alimentação. Ela está associada à inflamação do organismo produzida por uma doença, o que, por sua vez, produz alterações no metabolismo. Como resultado, a pessoa pode perder peso e principalmente músculos, mesmo quando tenta melhorar a alimentação.

“A cartilha é justamente essa tradução do conhecimento científico para o cuidado. […] A pesquisa não deve terminar no artigo científico; ela precisa, sempre que possível, retornar como benefício para o paciente”, enfatiza a pesquisadora.

Ou seja, a cartilha busca transformar o conhecimento científico em algo que possa ser utilizado pelo paciente no cotidiano. Por isso, ela reúne informações sobre alimentação saudável, segurança dos alimentos, manejo de sintomas e receitas.

Foto em close-up de três pessoas sorrindo lado a lado em um ambiente acadêmico ou de conferência. Da esquerda para a direita estão Maria Carolina Santos Mendes, José Barreto Campello Carvalheira e Ananda.
Ananda com sua orientadora Maria Carolina Santos Mendes e co-orientador José Barreto Campello Carvalheira

Uso de linguagem simples

Um dos principais desafios apontados por Ananda foi encontrar uma forma de simplificar a linguagem sem perder a precisão das informações. Termos comuns na literatura científica e na prática clínica, como desnutrição, caquexia, inflamação sistêmica e interação entre nutrientes e medicamentos, precisaram ser traduzidos para uma linguagem acessível aos pacientes.

“O exercício foi sempre pensar: ‘O que essa informação muda na vida desse paciente? O que ele precisa entender para conseguir tomar uma decisão no café da manhã, no almoço ou quando for ao supermercado?’”, comenta Ananda.

Essa preocupação aparece na própria estrutura da cartilha. O material não se resume a apresentar conceitos sobre nutrição, mas também traz orientações práticas para diferentes sintomas, cuidados com a segurança dos alimentos e receitas associadas a situações específicas vivenciadas durante o tratamento.

Esse caminho é justamente uma das características do mestrado profissional: partir de uma pergunta científica para a produção de conhecimento e, depois, para a criação de uma ferramenta que possa ser utilizada pela sociedade.

Essa modalidade de pós-graduação busca aproximar a ciência das necessidades concretas da sociedade, transformando os resultados da pesquisa em soluções que possam gerar impacto para além da universidade.

Combate à desinformação

Vista superior de uma pessoa vestindo jaleco e estetoscópio, preenchendo uma ficha com caneta azul em uma prancheta. Ao lado, sobre a mesa branca, há uma fita métrica entrelaçada em uma variedade de frutas e vegetais frescos, como uvas, laranjas, tomates, pimentões, beringela e alface.
Fonte: seoterra (getty Images Pro)

Hoje, uma das maiores dificuldades para difundir o conhecimento científico é a desinformação. Na internet, não faltam promessas sem respaldo científico de “super-alimentos”, curas e dietas milagrosas para o tratamento do câncer.

O problema se agrava quando falsas verdades alimentam o pânico e induzem os pacientes a restrições severas sem qualquer orientação profissional.

Entre essas falsas verdades está a ideia de que o açúcar “alimenta o câncer” e que, por isso, os carboidratos devem ser evitados a todo custo. Segundo Ananda, esse assunto está entre as dúvidas mais frequentes recebidas nos consultórios.

“Os carboidratos são uma importante fonte de energia para o organismo. Quando não fornecemos energia suficiente pela alimentação, o organismo pode recorrer às próprias reservas, inclusive à massa muscular. E justamente em oncologia uma das nossas grandes preocupações é preservar o estado nutricional e a massa muscular”, comenta Ananda.

Ela complementa: “Isso não significa estimular o consumo excessivo de açúcar. A orientação é manter uma alimentação equilibrada e limitar açúcares simples, como recomendamos para a população em geral. Mas é diferente de dizer que açúcar ou carboidrato especificamente ‘fazem o câncer crescer’.”

“Durante o tratamento oncológico, dietas extremamente restritivas, feitas sem indicação profissional, podem acabar trazendo mais prejuízo do que benefício”, explica.

Para combater o pânico e a desinformação, a cartilha resgata o conceito fundamental de uma alimentação saudável e equilibrada. Longe de proibições radicais, o foco está em fornecer ao corpo os nutrientes necessários para enfrentar a rotina do tratamento: carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais e hidratação.

Como e onde escolher os alimentos? E quais evitar?

Pessoa usando camisa xadrez e avental escuro higienizando um pimentão amarelo e um vermelho sob a água corrente de uma torneira inox em uma pia de cozinha. Abaixo das mãos há folhas de alface e, ao fundo, outros vegetais como cenouras, tomates e brócolis.
Fonte: Canva

Durante o tratamento contra o câncer, um cuidado essencial ganha ainda mais importância: a segurança dos alimentos.

Alguns tratamentos podem reduzir temporariamente as defesas do organismo. Nesse contexto, uma contaminação alimentar, que talvez tivesse repercussões menores em outra pessoa, pode representar um risco maior para aquele paciente”, explica a nutricionista. 

Nessa fase, microrganismos como bactérias, vírus, protozoários e parasitas podem representar riscos gigantes. Frutas, verduras e legumes, por exemplo, exigem atenção especial quanto à higienização com solução clorada, independentemente de serem consumidos crus ou cozidos.

“A cartilha orienta desde a escolha do local de compra e a procedência dos alimentos, até higienização, armazenamento e manipulação. […] Também falamos sobre evitar contaminação cruzada, cozinhar adequadamente carnes, peixes e ovos e armazenar corretamente os alimentos após o preparo”, comenta Ananda.

Além disso, a cartilha apresenta uma série de alimentos que devem ser evitados em determinadas situações. Entre eles estão queijos mofados ou fungados, como gorgonzola e brie; alimentos probióticos, como leites fermentados, iogurtes com lactobacilos vivos, kombuchá, kefir e chucrute; e diversas plantas e ervas medicinais sem orientação profissional, como babosa e ginkgo biloba.

Nutrição individualizada

Durante o tratamento oncológico, surgem dúvidas frequentes sobre o que fazer quando o enjoo aparece, a boca dói ou o intestino muda de ritmo. Diante dessas dificuldades, a orientação nutricional precisa ser ajustada às necessidades de cada paciente. Um mesmo alimento pode ajudar em uma situação e causar desconforto em outra, dependendo do sintoma apresentado.

“Um exemplo muito claro é a dor para mastigar ou engolir, que pode acontecer em alguns tratamentos. Para esse paciente, simplesmente dizer ‘coma frutas e verduras’ ou ‘tenha uma alimentação saudável’ não resolve o problema”, indica a nutricionista. 

Ela complementa: “A textura passa a ser fundamental. Podemos precisar priorizar alimentos mais macios, úmidos e de menor volume, como purês, sopas, vitaminas ou mingaus, além de fracionar a alimentação em pequenas refeições ao longo do dia.”

Segundo a pesquisadora, esses exemplos mostram por que a alimentação no câncer precisa ser individualizada. “A orientação adequada para um paciente com constipação, por exemplo, pode ser completamente diferente daquela dada a um paciente com diarreia. Não existe uma única ‘dieta do câncer’”, reforça Ananda.

Para ajudar o paciente a contornar esses obstáculos sem comprometer a nutrição, a cartilha reúne abordagens específicas para diferentes sintomas e efeitos adversos do tratamento.

Receitas pensadas para cada sintoma

Composição de cartões com receitas culinárias sobrepostos. O cartão da frente mostra um prato de massa rigatoni com molho e carne com o título "Receitas". Os cartões atrás exibem textos de modo de preparo, a imagem de um copo com bebida quente polvilhada e uma foto de picolés verdes de palito.
Fonte: Foxy (Dolphin)

A cartilha ainda leva o conhecimento diretamente para a cozinha. Ao final do guia, uma seleção de receitas práticas mostra como transformar as recomendações nutricionais em preparações reais, saborosas e adequadas à rotina de quem enfrenta o tratamento oncológico.

As receitas foram estruturadas estrategicamente para responder a essa pergunta, servindo como uma ponte entre a orientação nutricional e a prática na cozinha. Elas trazem indicações claras de para quais sintomas são recomendadas e, igualmente importante, quando devem ser evitadas.

“Isso também reforça uma mensagem importante da cartilha: a alimentação pode e deve ser adaptada. O paciente não precisa simplesmente deixar de comer porque determinado alimento ou determinada preparação deixou de ser bem tolerada”, comenta Ananda.

A cartilha conta com uma ampla gama de receitas, de pratos salgados a sobremesas e bebidas.

O picolé de abacaxi com couve, por exemplo, é apresentado como uma opção para pacientes com náuseas e vômitos, mas é contraindicado em casos de mucosite, caracterizada por feridas na boca. Já o mingau de amido de milho com banana e canela, indicado para mucosite, entre outros sintomas, é contraindicado em casos de constipação.

A cartilha desenvolvida por Ananda cumpre um importante papel da pesquisa acadêmica e do mestrado profissional: transformar conhecimento em impacto social. O material busca fornecer informações nutricionais confiáveis para apoiar a autonomia do paciente e de seus familiares. Afinal, a alimentação durante o tratamento oncológico é parte importante do cuidado com a saúde e o bem-estar do paciente.

Acesse a cartilha completa no link abaixo:

https://portal.fcm.unicamp.br/wp-content/uploads/sites/58/2026/01/2025-Alimentacao-em-Oncologia-Orientacoes-praticas-para-pacientes-e-familia.pdf

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