Profissionais de saúde da atenção primária de Campinas têm conhecimento parcial sobre COVID longa — inclusive sobre sua definição. A constatação saiu de uma pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e motivou a criação de uma cartilha de orientação voltada às equipes das unidades básicas do município.
O trabalho é produto da dissertação de Alena Costa Marruaz, concluída em 2025 no Mestrado Profissional em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde, sob orientação da professora Aldiane Macedo Bacurau, e coorientação de Priscila Bergamo Francisco, ambas do Departamento de Saúde Coletiva (DSC).
“Os resultados apontaram que o conhecimento dos profissionais foi parcial, principalmente em relação à própria definição de caso da COVID longa. Uma parte importante dos participantes não soube apontar que os sintomas da doença podem ser flutuantes, com duração variável. Também apresentaram dúvidas quanto à necessidade de confirmação laboratorial de infecção prévia por SARS-CoV-2, que não é um critério obrigatório para considerar a hipótese diagnóstica da COVID longa”, declara Alena.
A cartilha esclarece esse ponto seguindo a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), elaborada entre 2020 e 2021. Nos primeiros meses da pandemia, o acesso a testes diagnósticos era restrito a casos graves. Pessoas com sintomas leves ou moderados frequentemente não realizaram PCR — mas também podem desenvolver sequelas de longo prazo.
“A ideia principal é que os profissionais estejam atentos às possibilidades diagnósticas que se associam à COVID longa, que utilizem as ferramentas disponíveis para investigação dos sintomas e sinais e, principalmente, que validem a experiência dos usuários”, afirma Alena.

Para decidir quais sintomas incluir no guia, as autoras combinaram evidências científicas existentes com experiência prática. Alena atuou na atenção primária de Campinas durante a pandemia, atendendo casos de COVID longa com equipes multiprofissionais — vivência que influenciou diretamente as escolhas do tema e produção do material.
De acordo com ela, a maior dificuldade foi traduzir para a linguagem da atenção básica os sintomas neurológicos e psicológicos. “Os relacionados ao sistema nervoso central, como a disautonomia e neurocognitivos, bem como os de saúde mental, requerem a utilização de algumas escalas para melhor avaliação, que no dia a dia das equipes, em um contexto de sobrecarga de atendimentos, podem ser mais difíceis de serem acessados por necessitarem de tempo para serem utilizados”, completa.
Para a orientadora Aldiane Bacurau, o maior desafio foi trabalhar no início da pesquisa, em 2022, com uma condição complexa, com sintomas variados e evidências científicas ainda em construção. “Transformar as informações técnicas existentes sobre a Covid longa, com pouco consenso na literatura e a escassez de protocolo específico, em um material didático, acessível e útil na prática dos profissionais de saúde foi desafiador. Mas são iniciativas como essa que ajudam a ampliar o olhar das equipes da Atenção Primária para um problema complexo, como a COVID longa”.
A professora destaca ainda a relevância do tema para o Sistema Único de Saúde (SUS). “A COVID longa é um importante desafio para o SUS, pois impacta a qualidade de vida das pessoas e aumenta a demanda por cuidados contínuos. Nesse contexto, o guia pode ajudar a qualificar a assistência local e diminuir a invisibilidade do problema nos serviços”.
A distribuição está prevista em formato digital para facilitar o acesso na rede básica de Campinas. A adaptação para outros municípios é permitida, mas deve considerar os fluxos assistenciais e regulatórios locais.
A cartilha pode ser acessada no repositório da Unicamp: https://repositorio.unicamp.br/Acervo/Detalhe/1553228. Já a dissertação está disponível em: https://doi.org/10.47749/T/UNICAMP.2025.1540254.

