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Conversa com escritora Natália Zuccala na FCM explora relações entre medicina e literatura

Autora de Estela a esta hora participou de evento em atividade integrada à disciplina de Bases Humanas da Prática Médica

Na tarde da última quarta-feira, 29 de abril, o Salão Nobre da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp recebeu a autora Natália Zuccala para um bate-papo sobre seu romance Estela a esta hora (Todavia, 2023). O evento integra o conjunto de atividades da disciplina MD170 — Bases Humanas da Prática Médica, que adotou a obra como leitura do primeiro ano do curso de Medicina.

Estiveram presentes os professores da disciplina, os docentes da FCM, Cláudio Banzato e Rosana Onocko-Campos, e do IEL, Márcia Abreu, além de Diego Ortega, aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (Saúde Mental). Após a escritora ler um trecho do livro sobre os limites entre vida e morte, os alunos puderam fazer perguntas sobre o processo criativo, as escolhas narrativas e as conexões entre literatura e prática médica.

“Boa tarde. Queria começar agradecendo o convite, a atenção de vocês, poder fazer esse encontro, de fato, em que a gente esteja presente, se ouvindo e dialogando. E também aos professores pela leitura do livro. É uma alegria enorme”, declarou Zuccala.

Mulher jovem, de cabelos cacheados presos, lê ao microfone um exemplar do livro “Estela a esta hora” enquanto está sentada à mesa em um auditório; ao fundo, há projeção desfocada em uma tela.
Natália Zuccala lê trecho de seu livro

O romance acompanha Estela, uma residente de cirurgia, e foi escrito durante a pandemia de Covid-19 — período que, segundo a autora, trouxe uma camada de reflexão sobre o papel social do médico. “Todos os olhos se voltaram para os profissionais da saúde. O que fazemos agora?”, disse ela, lembrando o impacto daquele momento na concepção do livro.

A escolha por uma residente como protagonista foi deliberada: “Eu queria essa situação de limite — pessoas que ainda não são médicos bem estabelecidos, mas não são mais estudantes, não estão nem aqui nem lá, nem claro nem escuro.” Acrescentou, logo no começo da conversa com os estudantes, que quis abrir a narrativa com uma descrição de uma laparotomia, com a exposição das vísceras do paciente e com a capacidade dos médicos de tocar com as mãos o interior do corpo humano.

A escritora revelou que a pesquisa para a obra incluiu entrevistas com preceptores de residências médicas em São Paulo, além de horas assistindo a vlogs desses estudantes. O que encontrou a surpreendeu: “Fiquei muito chocada com as condições de trabalho. Comecei a ver relatos que eram cenários de guerra.” A percepção de uma cultura militarizada na formação médica — em que o sofrimento vivido por uma geração é replicado sobre a seguinte — tornou-se um dos temas centrais da narrativa.

A formação em psicanálise da autora atravessa toda a construção da personagem Estela, descrita por Zuccala como “chata para caramba” — alguém que exerce rígido controle sobre o mundo exterior como forma de evitar olhar para os próprios conflitos internos. A autenticidade da personagem despertou interesse entre os alunos da FCM. “Foi uma enorme satisfação ler que vocês achavam que era verossímil. Estava com medo de que não fosse”, admitiu.

Vista do fundo de um auditório lotado durante uma palestra. À frente, dois palestrantes estão sentados à mesa sob uma projeção, com as bandeiras de São Paulo e do Brasil ao lado.
Público presente no Salão Nobre da FCM

Um dos momentos mais provocadores foi a reflexão sobre desumanização na medicina. “Quando a gente passa o dia lidando com corpos e doenças e tenta se distanciar do sujeito, quem acaba desumanizado não é só o paciente — é o médico”, disse Zuccala. Segundo a escritora, a lógica da urgência hospitalar acabou invadindo os outros campos da medicina.

A autora refletiu ainda sobre o poder da palavra — tanto na literatura quanto na clínica. “Quando a gente é capaz de nomear uma dor, às vezes ela passa a existir”, afirmou, lembrando a descoberta freudiana de que escutar o paciente falar sobre sua doença já é, em si, um ato terapêutico. Para Zuccala, o ponto de encontro entre o médico e o escritor se dá na medida em que ambos se veem diante do que há de mais real e sombrio na experiência humana.

Segundo o professor Cláudio Banzato, coordenador da disciplina, o contato dos estudantes com narrativas literárias visa contribuir para o desenvolvimento de competências fundamentais à prática médica, como a escuta atenta, a interpretação situada e a compreensão da singularidade da experiência do adoecimento.

Sobre a autora

Natália Zuccala nasceu em São Paulo. É escritora, professora e psicanalista, formada em Letras pela USP e especializada em psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Publicou o livro de contos Todo mundo quer ver o morto (2017) e os romances Cheia (2021), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Estela a esta hora (2023).

Estudante sentada em cadeira de auditório segura um microfone e fala, com expressão atenta; outras pessoas ao redor acompanham a atividade, algumas olhando para ela.
Alunos do primeiro ano de Medicina participaram com perguntas
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