
Convivência e Saúde: quando o cuidado se constrói no encontro
Na manhã de 2 de abril, a Academia da Saúde, no centro de Campinas, recebeu o primeiro encontro do projeto de extensão Convivência e Saúde, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. A atividade foi voltada à população LGBT60+ — sigla que reúne pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, entre outras, com 60 anos ou mais. A iniciativa foi contemplada pelo edital 01/2025 da Coordenadoria de Extensão da FCM.
O encontro reuniu idosos, estudantes e professores integrantes do projeto, profissionais da Atenção Básica e membros da comunidade em torno de um lanche coletivo e de uma roda de conversa. Os temas abordados incluíram escuta, vínculo, território, SUS e diversidade — sempre a partir do diálogo com os próprios participantes. Estiveram também Rubens Bedrikow, assessor docente da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp; André Fattori, coordenador do Ambulatório LGBT60+ do Hospital de Clínicas; e Kleber Ferreira, coordenador da Academia da Saúde.
Segundo a coordenadora, professora Suane Soares, do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) da FCM, a iniciativa parte do reconhecimento de que, para além das demandas clínicas, existe uma necessidade profunda de convivência, pertencimento e construção de vínculos. “Muitas pessoas idosas LGBT+ chegam aos serviços de saúde com trajetórias marcadas por isolamento social, fragilização de redes de apoio e experiências de discriminação ao longo da vida, inclusive nos próprios espaços de cuidado”, afirma.

O primeiro encontro foi descrito por Márcia Guimarães, que também integra o projeto, como o início de um processo — e não uma atividade pontual. O que mais chamou atenção, segundo ela, foi a potência do reconhecimento: pessoas que, muitas vezes, não tiveram espaços seguros ao longo da vida puderam estar ali de forma inteira, compartilhando histórias, memórias, afetos e também silêncios. “As falas trouxeram marcas de dor, mas também de resistência, humor e desejo de viver”, relata.
Entre as demandas identificadas pelo projeto estão o isolamento e a solidão, questões de saúde mental, o medo do adoecimento, as dificuldades de acesso e permanência nos serviços de saúde e a necessidade de reconhecimento das identidades e trajetórias de vida — elementos que reforçam a importância de um cuidado integral, sensível às singularidades do envelhecimento LGBT+.
A ação contou com a colaboração da Prefeitura Municipal de Campinas, por meio do CS ‘Mário de Campos Bueno Júnior’ e do CECO Casa dos Sonhos. A escolha da Academia da Saúde para o primeiro encontro se deve ao fato de estar inserida na Atenção Primária do município, ser acessível e estar situada na região central, que concentra grande parte dos usuários do serviço. A articulação com o SUS, explica Suane, é essencial para ampliar o acesso, qualificar o cuidado próximo às realidades locais e fortalecer uma rede de apoio contínua e efetiva.

Para Suane, iniciativas como essa contribuem diretamente para o fortalecimento do SUS ao ampliarem o entendimento de cuidado para além do atendimento clínico. “Produzir saúde, nesse contexto, envolve escuta qualificada, reconhecimento das diferenças, construção de vínculos e articulação em rede”, conclui.
O projeto de extensão Convivência e Saúde, vinculado à FCM, se articula com o Ambulatório LGBT60+ do HC e com o Lepie (Laboratório de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares do Envelhecimento LGBT60+), compondo uma rede integrada de cuidado, formação e produção de conhecimento.
O Ambulatório é um serviço especializado que funciona de portas abertas, atendendo pacientes de Campinas e região semanalmente às sextas-feiras. Mais informações pelo telefone (19) 3521-7878.
Instagram do Lepie: @lepielgbt60

