A professora Iscia Teresinha Lopes Cendes, do Departamento de Genética Médica e Medicina Genômica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, recebeu menção honrosa na edição 2026 do Prêmio Ester Sabino, promovido pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo. A cerimônia foi realizada no dia 31 de março, na capital paulista. A premiação reconhece mulheres cientistas que contribuem de forma relevante para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado.
As vencedoras das categorias principais foram as cientistas químicas Vanderlan da Silva Bolzani (Pesquisadora Sênior) e Caroline Gaglieri (Jovem Pesquisadora). O prêmio foi entregue pelo secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan. A professora Eliana Amaral, do Departamento de Tocoginecologia, esteve no evento representando a FCM.
“Receber uma menção honrosa em um prêmio que leva o nome da Ester Sabino é, para mim, um reconhecimento que ultrapassa a trajetória individual. Ele reflete uma construção coletiva, especialmente no que diz respeito à formação de outras mulheres na ciência. Ao longo da minha carreira, tive o privilégio de orientar diversas pesquisadoras que hoje já seguem caminhos próprios, inclusive duas jovens que recentemente se estabeleceram de maneira independente na Unicamp. Esse talvez seja o legado mais importante: contribuir para que outras mulheres ocupem os espaços de liderança em ciência”, afirmou.

A pesquisadora, que é médica formada pela Unicamp e doutora em Neurociências pela McGill University, no Canadá, trilhou toda a sua carreira no Estado de São Paulo. “Voltar ao Brasil foi uma decisão consciente. Eu queria construir, não apenas participar. Havia uma oportunidade real de desenvolver áreas ainda pouco estruturadas, especialmente na interface entre genética, neurociências e prática clínica. Trabalhar em um hospital universitário inserido no SUS sempre foi central para a minha carreira porque é ali que as perguntas científicas ganham relevância concreta. Ou seja, nos estimula a responder questões médicas que importam para a nossa população”.
Ao longo de sua carreira, Iscia orientou mais de 140 pesquisadores em diferentes níveis — 71 estudantes de pós-graduação, 34 de pós-doutorado e 39 de iniciação científica. Vários deles ocupam hoje posições de liderança acadêmica no Brasil e no exterior. “Formar um bom pesquisador não é apenas ensinar técnica. É estimular o desenvolvimento de pensamento crítico, rigor e, principalmente, autonomia. O objetivo final não é formar bons alunos, mas sim futuros líderes. Quando vejo ex-orientandos construindo seus próprios grupos e trajetórias independentes, sei que estou no caminho certo”.
Segundo Iscia, o Brasil conta com uma formação científica de alta qualidade, mas enfrenta dificuldades em garantir a continuidade das carreiras. O principal desafio não está na falta de talento, e sim na ausência de condições estáveis que permitam aos jovens pesquisadores alcançar autonomia. “Sem isso, corremos o risco de perder uma geração altamente qualificada. Esse problema é ainda mais evidente no caminho de mulheres cientistas que, infelizmente, encontram inúmeras barreiras para o seu estabelecimento e crescimento no ambiente acadêmico.”

Com mais de 285 artigos publicados em periódicos internacionais e índice h de 60, a pesquisadora tem atuação destacada em grandes consórcios internacionais, como o ENIGMA Consortium e o International League Against Epilepsy Consortium on Complex Epilepsies. Ela também participou da criação do primeiro banco público de dados genômicos da América Latina, por meio da Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed), e integra o Brazilian Institute of Neuroscience and Neurotechnology (Brainn), Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão financiado pela Fapesp.
Ao apontar as perspectivas da medicina genômica, Iscia destaca a singularidade do país nesse campo. “O Brasil tem uma vantagem estratégica: a diversidade genética da sua população. Integrar dados genômicos com abordagens como transcriptômica e análises em célula única, dentro de contextos clínicos reais, pode gerar conhecimento original e altamente relevante. Temos condições de contribuir de forma única para a medicina genômica global”, avaliou.
Segundo a professora, a indicação para o prêmio, que partiu da FCM, reflete uma trajetória construída dentro da instituição ao longo de muitos anos. A honraria vai além de um reconhecimento pessoal ao sinalizar a capacidade da Faculdade de formar pesquisadores, consolidar áreas estratégicas e priorizar a ciência aplicada, voltada à busca de soluções para problemas concretos da população.
Instituído pelo Decreto Estadual nº 65.952/2021, o prêmio homenageia a Profa. Dra. Ester Cerdeira Sabino, cientista reconhecida internacionalmente por sua liderança no sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 nos primeiros casos de Covid-19 no Brasil. As candidatas são indicadas por instituições científicas, tecnológicas e de inovação paulistas, e avaliadas por critérios que incluem formação acadêmica, produção científica, formação de recursos humanos e relevância social das pesquisas. A comissão julgadora é composta por representantes da USP, Unesp e Unicamp.

