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Aula inaugural dos PPGs de Saúde Coletiva da Unicamp debate SUS, soberania digital e inteligência artificial

A aula inaugural dos Programas de Pós-Graduação (PPG) em Saúde Coletiva e em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp reuniu docentes, pesquisadores e novos estudantes em 12 de março, no anfiteatro 1. O evento teve ainda a conferência da secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde e professora titular da USP, Ana Estela Haddad, que apresentou potencialidades e desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) nos campos da informação, digital e inteligência artificial.

A cerimônia foi conduzida pela coordenadora do PPG em Saúde Coletiva, Margareth Guimarães Lima, que aproveitou a ocasião para encerrar seu ciclo à frente do programa. Ela agradeceu a docentes, discentes e à equipe administrativa, anunciou a nota máxima conquistada pelo mestrado profissional na avaliação da Capes e voltou-se aos calouros: “Eu gostaria de reafirmar que estudar, fazer ciência e pesquisa são grandes maneiras de resistir às tensões sociais, antidemocráticas, nacionais e internacionais”.

O coordenador do PPG em Saúde Coletiva: Políticas e Gestão em Saúde (mestrado profissional), professor Herling Alonzo, destacou o valor coletivo da pós-graduação e a tradição de receber pesquisadores de diferentes instituições na aula inaugural. “Tornar-se mestre e doutor é relevante e importante para o país” disse, lembrando que o Sistema Nacional de Pós-Graduação reúne hoje mais de 5 mil programas, sendo 101 na área de Saúde Coletiva.

Mesa redonda com cinco especialistas em evento da Unicamp. Um homem de barba e óculos fala ao microfone enquanto os demais ouvem.
Margareth Lima, Guilherme Cecatti, Ana Estela Haddad, Sérgio de Lucca e Herling Alonzo

Em nome da diretoria da FCM e da Pró-reitoria de Pós-graduação, o professor José Guilherme Cecatti transmitiu as boas-vindas, destacou que 55% dos cursos da Unicamp atingiram notas seis ou sete na última avaliação da Capes, e encerrou com um apelo: “A pós-graduação é um curso que é feito para vocês, mas também por cada um, que individualmente tem uma importância muito grande na qualidade geral dos programas”.

Conferência de Ana Estela Haddad: o SUS na era digital

“Quando recebi o convite, me senti extremamente honrada. Quero parabenizar e dar as boas-vindas a todos os ingressantes e dizer a vocês que devem se sentir orgulhosos, felizes e motivados pelo passo que estão dando. Não pensem que o caminho será fácil — nunca é. Cada um vai ter a chance de se inspirar e construir uma trajetória própria e autônoma, porque é para isso que o mestrado e o doutorado também vêm nas nossas vidas. E, nessa casa de líderes, terão grandes oportunidades. A contribuição da universidade pública brasileira para a construção do nosso país é imensurável e ainda está por ser registrada de muitas formas”, declarou, no início, Ana Estela Haddad.

Cirurgiã-dentista com especialização em odontopediatria, Haddad construiu sua trajetória entre a clínica particular e as políticas públicas — passando pelo Ministério da Educação, onde participou da formulação do ProUni, e pela pasta da Saúde, onde ajudou a criar o Pró-Saúde e o PET-Saúde. Também coordenou uma política intersetorial para a primeira infância com 15 secretarias municipais de São Paulo.

Criada no início de 2023, a Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) nasceu de recomendação de um grupo de trabalho que incluiu ex-ministros da Saúde. Para Haddad, a iniciativa tem peso histórico: “A gente está sendo alçado a discutir com os países com maior prontidão digital do mundo por ter dado esse passo importante sobre a reforma sanitária e o SUS”. A secretária defendeu esse projeto orientado por equidade, solidariedade, inclusão, direitos humanos e democracia — e não pela lógica de mercado das grandes plataformas tecnológicas.

Palestrante em pé apresenta slide sobre "Saúde Digital" para uma plateia em um auditório.
Ana Estela Haddad

Com 2,8 bilhões de atendimentos anuais e 76% da população totalmente dependente do sistema público, o SUS acumula um acervo informacional de enorme potencial analítico — historicamente disperso em centenas de sistemas incompatíveis. “Não há dados mais sensíveis do que os de saúde e estes são os mais cobiçados e atacados”, alertou Haddad, que defendeu a soberania digital em camadas: dos registros armazenados em território nacional à autonomia operacional e, em perspectiva distante, à independência tecnológica.

Lançado em 2024, o Programa SUS Digital repassou verbas a estados e municípios, condicionados a um diagnóstico situacional e à aplicação de um Índice Nacional de Maturidade da Saúde Digital com sete dimensões. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma central da iniciativa, saltou de 700 milhões para 4,3 bilhões de registros desde 2023.

A RNDS alimenta três plataformas: o Meu SUS Digital — com 29 milhões de usuários ativos, o aplicativo gratuito de saúde mais baixado do país —, o SUS Digital Profissional e o SUS Digital Gestor, em fase de lançamento. A ferramenta voltada às equipes de saúde permite acesso ao prontuário clínico do paciente independentemente de onde foi atendido. Hoje, 1,6 milhão de especialistas em 60 mil estabelecimentos já utilizam o SUS Digital Profissional.

Close da plateia assistindo ao evento, com um fotógrafo do Ministério da Saúde em primeiro plano.
Público no anfiteatro 1

O ministério desenvolve, ainda, aplicações experimentais de IA — como algoritmos para compra de medicamentos, triagem de processos judiciais e o ‘prontuário falado’, que transcreve e estrutura automaticamente a consulta médica. Mas Haddad alertou sobre os limites: “A oportunidade é grande, mas o risco também é imenso. É um equilíbrio muito delicado”. Com o projeto de lei do marco legal da IA aprovado no Senado e a saúde enquadrada nessa categoria de risco elevado, regulamentação específica ainda está por vir.

Em 2025, o SUS realizou 5,7 milhões de teleatendimentos, beneficiando 52% dos municípios brasileiros — 56% deles na Região Norte, onde a demanda é maior. Um estudo com 106 mil lesões dermatológicas realizadas via teleconsulta mostrou que 42% foram resolvidas na atenção básica, sem chegar à fila de regulação. Haddad ainda citou a chegada da Infovia 01 – projeto de fibra óptica subaquática de mais de 1 mil km na região Norte – a um município ribeirinho acessível apenas por barco: em dois meses, foram realizadas 300 consultas remotas.

Ao encerrar, Haddad lembrou que o Brasil tem uma das maiores infraestruturas informacionais em saúde do mundo — e uma das menos exploradas. “A pesquisa com dados do SUS tem forte impacto direto na gestão e na implementação de políticas. A saúde é um determinante social, portanto, a produção de conhecimento sobre esse tema depende da vinculação de dados, incluindo os socioeconômicos”.

À tarde, a programação seguiu com atividades voltadas aos ingressantes de cada programa, incluindo aula sobre extensão na pós-graduação, acolhimento e orientações administrativas.

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