A revista científica Nature Reviews Disease Primers publicou seu primeiro artigo de revisão dedicado às manifestações neurológicas e psicológicas associadas à Covid-19, incluindo a Covid longa. O trabalho conta com a participação da professora Clarissa Lin Yasuda, do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e pesquisadora do Cepid Brainn (Instituto de Pesquisa sobre Neurociências e Neurotecnologia) — única brasileira entre os 14 autores do estudo.
Publicado em dezembro de 2025, o artigo reúne evidências atualizadas sobre os mecanismos envolvidos na doença e é acompanhado de um PrimeView, síntese visual dos principais processos biológicos identificados até o momento. A equipe é composta por especialistas de diversas áreas e países, incluindo Jo Ellen Wilson, Deepti Gurdasani, Akiko Iwasaki e E. Wesley Ely, entre outros.
Prevenção e saúde pública
Entre os pontos centrais levantados pela revisão está o fato de que evitar a infecção pelo SARS-CoV-2 continua sendo a única forma de prevenção direta da Covid longa. O cenário se torna ainda mais preocupante diante da queda nos índices de testagem e vacinação observada nos últimos anos, o que dificulta o monitoramento da doença. Para Yasuda, o impacto da condição sobre a saúde pública ainda é amplamente subestimado.
“Acredito que milhares de pessoas apresentem algum sintoma associado à Covid longa, mas a maioria não tem acesso à investigação ou ao tratamento. Alguns estudos econômicos já avaliaram a perda de capacidade de trabalho e o impacto econômico associados à Covid longa em diversos países”, afirma a pesquisadora.
Desigualdade no acesso ao diagnóstico
O artigo também aponta que a Covid longa é mais prevalente em indivíduos de grupos étnicos minoritários. No Brasil, essa realidade assume contornos próprios, dado o perfil miscigenado da população. Yasuda destaca que, mesmo com a existência do SUS, as disparidades no acesso ao diagnóstico e ao cuidado persistem.
“Infelizmente, essa é uma realidade que provavelmente nos envolve, já que grande parte da nossa população é miscigenada. Apesar do sistema universal de saúde do Brasil, as minorias ainda enfrentam dificuldades de acesso ao mesmo e, consequentemente, ao diagnóstico e ao tratamento de sintomas que podem ser limitantes”, observa.
Mecanismos ainda sob investigação
O PrimeView do estudo ilustra diferentes mecanismos associados à Covid longa, como persistência viral, reativação de herpesvírus, inflamação e danos endoteliais. O próprio diagrama, porém, reconhece incertezas quanto à aplicação desses processos às diversas variantes do coronavírus. A professora da FCM explica que o campo ainda enfrenta muitas lacunas científicas a superar.
“Ainda estamos diante de uma doença nova, causada por um vírus ainda pouco conhecido. Muitas incertezas e inúmeros questionamentos ainda persistem diante de manifestações sistêmicas e neurológicas tão heterogêneas. Além disso, a complexidade dos estudos aumenta diante das variantes que surgem naturalmente ao longo do tempo. Entretanto, o aspecto inflamatório, relacionado a uma resposta disfuncional e persistente, parece ser um fator mais estabelecido e estudado até o momento”, explica Yasuda.
Tratamentos e reabilitação
As evidências para o manejo da Covid longa ainda são consideradas limitadas. O artigo menciona entre as terapias investigadas intervenções psicológicas, fisioterapia e estimulação cerebral. Porém, a heterogeneidade dos sintomas dificulta a escolha de abordagens específicas e efetivas. Para a pesquisadora, a personalização do cuidado é o caminho mais promissor no estágio atual do conhecimento.
“Na minha opinião, o desconhecimento da fisiopatologia que gera sintomas variados em termos de tipo e gravidade limita a escolha de terapias medicamentosas e não medicamentosas específicas e efetivas. Assim, considero importante o tratamento multidisciplinar e multimodal para a reabilitação e a estimulação cerebrais individualizadas, sempre que possível”, diz.
Papel do Brasil e da pesquisa da Unicamp
A revisão aponta a necessidade urgente de padronização de definições, avaliações e ensaios clínicos de alta qualidade. Yasuda destaca que o Brasil já possui instrumentos normativos relevantes, como a Nota Técnica Nº 57/2023, do Ministério da Saúde, que incorpora a Classificação Internacional de Doenças (CID) relacionada à Covid longa. A participação brasileira no artigo é resultado de um trabalho iniciado em 2020, com coleta de material realizada com o aparelho de ressonância do Brainn, cujas análises seguem em curso em projetos nacionais e colaborações internacionais.
“Foi muito importante e gratificante trabalhar com o grupo de autores, especialistas em diferentes áreas. O convite para escrever o artigo reconhece o trabalho local na Unicamp, iniciado em 2020. Nosso grupo começou a coleta de dados (trabalho em andamento) em meio a todas as dificuldades e restrições da pandemia, utilizando o aparelho de ressonância do Brainn. Nossa participação nesse artigo reforça a importância da pesquisa brasileira sobre a Covid longa no cenário internacional”, relata Yasuda.
A publicação
Nature Reviews Disease Primers faz parte do portfólio de periódicos Nature Reviews, na área de Medicina Clínica. Cada Primer (guia) oferece uma visão geral global do campo e destaca as principais questões de pesquisa em aberto. As publicações têm estrutura modular e são elaboradas por um painel internacional de cientistas acadêmicos, pesquisadores translacionais e clínicos. Novos números são lançados semanalmente.
Saiba mais:
- Artigo completo (Primer): nature.com/articles/s41572-025-00674-7
- PrimeView (síntese visual): nature.com/articles/s41572-025-00680-9
- Nota Técnica Nº 57/2023 (MS): https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/nota_tecnica_n57_atualizacoes_condicoes_poscovid.pdf
