Duas acadêmicas da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp foram contempladas com financiamentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolver estudos inovadores sobre displasia cortical focal tipo IIb, uma malformação cerebral que ocorre durante a gestação e está associada a formas graves de epilepsia em crianças. Amanda Morato do Canto e Simoni Helena Avansini integram o grupo de jovens pesquisadores apoiados pela Fapesp na FCM.
No mestrado e no doutorado cursados na FCM, elas foram orientadas por Iscia Lopes Cendes, docente do Departamento de Genética Médica e Medicina Genômica. Simoni também realizou parte do pós-doutorado na FCM, enquanto outra parte foi desenvolvida na Universidade da Califórnia. Antes de retornar à Unicamp, trabalhou por quatro anos no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Já Amanda realizou o seu pós-doutorado na FCM.
Programa Geração
Amanda foi a única pesquisadora da FCM aprovada na chamada de 2024 do Programa Geração da Fapesp, que selecionou 58 projetos em todas as áreas do conhecimento. Sua proposta, intitulada “Explorando a heterogeneidade espacial do tecido cerebral através de estudo multiômico em pacientes com Displasia Cortical Focal tipo IIb”, terá duração de seis anos, com início em fevereiro de 2025 e previsão de término em 2031.
O processo seletivo consistiu na entrevista de 92 candidatos por um comitê internacional e por membros da Fapesp. “Foi muito emocionante. A aprovação veio depois de mais de um ano de espera e, para mim, representou um reconhecimento de todo o caminho que percorri até aqui”, celebra a pesquisadora.

Multiômica espacial
O projeto de Amanda utiliza uma abordagem considerada inovadora na neurociência: a multiômica espacial. “É uma tecnologia que permite mapear, no próprio tecido cerebral, diferentes informações biológicas, como genes e proteínas, exatamente onde elas atuam”, explica. “Em vez de analisar tudo de forma geral, ela mostra o que está acontecendo em cada região específica do cérebro.”
Essa precisão é fundamental para compreender por que as crises epilépticas são tão difíceis de controlar nesses pacientes. “A displasia cortical focal tipo IIb é uma alteração no desenvolvimento do cérebro que acontece ainda durante a gestação. Em algumas regiões do córtex, os neurônios não se organizam da forma correta, o que favorece o surgimento dessas crises”, detalha Amanda.
O impacto da doença pode ser grande. “As crises podem começar cedo, ser frequentes e impactar diretamente o desenvolvimento, a aprendizagem e a qualidade de vida dessas crianças e de suas famílias”, ressalta a pesquisadora. Ela espera que os resultados contribuam para diagnósticos mais precisos e abram caminhos para estratégias terapêuticas direcionadas.
Organoides neurais
Simoni Avansini, aprovada como Jovem Pesquisadora pela Fapesp em dezembro de 2025, com projeto previsto até 2030, traz uma abordagem complementar: o uso de organoides neurais — estruturas tridimensionais de células-tronco que replicam características do cérebro humano, popularmente chamados de “minicérebros”. O laboratório no qual o trabalho será desenvolvido está sendo montado no prédio da Medicina Translacional da FCM.

Trata-se de um modelo humano derivado de células-tronco de cérebro, provenientes de pacientes cujas crises são extremamente difíceis de controlar e que não responderam ao tratamento medicamentoso ou cirúrgico. “São gravemente acometidos, e todo esforço é pouco ainda para tentarmos buscar novas abordagens terapêuticas”, explica Simoni. “Usando esse sistema que mantém o background genético do paciente, buscamos mimetizar a doença a ponto de desenvolver formas alternativas de terapia.”
Seu projeto, “Dissecando os mecanismos da rede neuronal e celular da Displasia Cortical Focal utilizando um modelo humano”, combina tecnologias de ponta: organoides neurais tridimensionais, registros eletrofisiológicos com sondas de múltiplos eletrodos, microscopia confocal de alta resolução e abordagens multiômicas. O objetivo é identificar uma assinatura elétrica capaz de distinguir organoides com displasia cortical focal de controles saudáveis.
Dedicação exclusiva à ciência
Ambas as modalidades de financiamento da Fapesp — Programa Geração e Jovem Pesquisador — oferecem condições diferenciadas, como a bolsa para manutenção. “A dedicação exclusiva à pesquisa também representa algo muito valioso: tempo e tranquilidade para pensar, criar e aprofundar o trabalho científico”, reflete Amanda. “Em um contexto como o brasileiro, esse apoio traz segurança e permite planejar o futuro com mais confiança.”
Para Simoni, o retorno à FCM representa a sensação de poder continuar fazendo aquilo que tem sentido. “Poder voltar a estudar epilepsia, usando um modelo humano do cérebro baseado em célula-tronco, é um motivo de muita alegria e gratidão”, emociona-se a pesquisadora.

“Tenho muito orgulho de ver duas jovens pesquisadoras, mulheres, trilhando com autonomia sua independência científica e tendo suas trajetórias reconhecidas pela Fapesp. Vivi essa experiência em 1996, quando fui contemplada com um Projeto Jovem Pesquisador, que foi essencial para o desenvolvimento da minha carreira na FCM, e é muito especial acompanhar agora esse mesmo caminho sendo construído por elas”, acrescenta Iscia.
Além de Amanda e Simoni, a FCM conta atualmente com outros sete jovens pesquisadores com financiamento da Fapesp em diferentes modalidades, desenvolvendo projetos nas áreas de doenças metabólicas, neurociências, oftalmologia e métodos analíticos. A implantação dos laboratórios conta com o apoio da faculdade.
Programas Geração e Jovem Pesquisador
O Programa Geração tem como objetivo central fomentar a independência acadêmica de pesquisadores em estágio inicial por meio do financiamento de ideias audaciosas e originais, permitindo que eles consolidem suas próprias linhas de investigação científica. Seu público-alvo é composto por doutores recentes que ainda não possuem vínculo empregatício com instituições de pesquisa, mas que apresentam potencial de liderança e buscam uma oportunidade de dedicação exclusiva para amadurecer sua trajetória profissional no estado de São Paulo.
Já o programa Jovem Pesquisador foca na criação e nucleação de novos grupos de pesquisa, visando atrair talentos para instituições paulistas ou centros emergentes para descentralizar a excelência científica. Ele é direcionado a pesquisadores com currículo robusto e experiência internacional consolidada após o doutorado, exigindo uma maturidade superior para a gestão de infraestrutura complexa, coordenação de equipes e implementação de laboratórios de ponta com impacto de longo prazo.
