O Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação “Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto” (Cepre) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) encerrou, no último dia 4, a programação da 15ª Virada Inclusiva com a visita do secretário de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Marcos da Costa. A Secretaria promoveu o evento em todo o estado. Entre 1º e 4 de dezembro, as atividades foram pela primeira vez realizadas na Unicamp. Oficinas, demonstrações e ações de interação marcaram a semana, incentivando a participação conjunta de pessoas com e sem deficiência em atividades inclusivas.
No encerramento, o secretário esteve acompanhado por pesquisadores, professores e gestores de instituições parceiras. A recepção foi conduzida por Ivani Rodrigues Silva, coordenadora do Cepre e do Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Tecnologia Assistiva para a Educação Bilíngue de Surdos (CCD Taebs).
Estiveram presentes também Ignácio Poveda Velasco, assessor especial da Secretaria; Lubienska Ribeiro, diretora da Escola da Inclusão; Nubia Bernardi, presidente da Comissão Assessora de Acessibilidade da Diretoria Executiva de Direitos Humanos; Roberto Donato da Silva Junior e Arnaldo Pinto Junior, assessores docentes da Reitoria, além de professoras da FCM e do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL).

Ivani apresentou a trajetória dos centros. “No Cepre a gente já tem mais de 50 anos de atividade, com vários programas que atendem surdos, pessoas com baixa visão, cegueira. Com o curso de Fonoaudiologia, desde 2000, atendemos ainda outras deficiências. Aqui também funciona o CCD Taebs, que queremos agradecer porque foi uma oportunidade que tivemos com o edital da Fapesp”, explicou. Ela destacou ainda as atividades desenvolvidas durante a Virada Inclusiva.
A professora Lucia Reily relatou uma das oficinas, voltada a metáforas e adivinhas. “Trabalhamos com crianças surdas e outras pessoas sobre adivinhas, porque elas têm uma certa complexidade de sentidos duplos. A ideia era transformar isso em imagem, para que os professores pudessem adentrar nesse mundo da metáfora, que é complicado para essas crianças em termos de português”, afirmou.
Ivani complementou, destacando o envolvimento das famílias. “Os adolescentes surdos criaram um jogo para aprender português. Eles sentem a necessidade de aprender mais a língua por meio de jogos. Já as mães pensaram na rotina da casa. Foi bastante interessante”.

Ao acompanhar as apresentações, o secretário Marcos da Costa relacionou a experiência do Cepre às ações da Secretaria, destacando projetos recentes envolvendo jogos e tecnologia assistiva. Ele também reforçou a dimensão do desafio educacional no país: “Cerca de 90% da comunidade surda não teve letramento em português. Isso é um fator de isolamento tremendo. A pessoa não consegue acessar nem a legenda de cinema”.
Ivani ressaltou a urgência do trabalho pedagógico voltado aos surdos. “O surdo não chega na faculdade porque a escola não consegue atingi-lo, e passa 11 anos sem aprender português. A gente precisa criar um currículo e atividades específicas para ele”, destacou.
Ignácio Poveda detalhou iniciativas de formação que dialogam com o trabalho desenvolvido no Cepre. “A disciplina paulista de acessibilidade e inclusão foi gravada na Univesp com profissionais da Unicamp, USP e Unesp. No ano, vamos chegar a 20.000 alunos formados. Isso mostra um interesse enorme em inclusão”, afirmou.

O diálogo avançou para a colaboração interinstitucional. Lubienska Ribeiro explicou o papel da Escola da Inclusão. “A ideia é buscar dentro das universidades o que a gente tem de melhor — cursos, apostilas, materiais — e levar para dentro da Secretaria e para toda a sociedade”. Ela reforçou a importância de orientações sobre situações cotidianas, como o uso de bengalas e condutas adequadas diante de cães-guia.
A partir da discussão sobre inclusão no mercado de trabalho, Poveda reforçou que o desafio das empresas vai além do cumprimento legal. “A empresa contrata porque tem que contratar, mas não sabe como aproveitar o potencial da pessoa. É cultural. Mas quando a empresa entende o que significa inclusão, a transformação acontece”, afirmou.
Nubia Bernardi e Arnaldo Pinto Junior compartilharam ações recentes da Unicamp em acessibilidade, formação docente e enfrentamento ao capacitismo. Arnaldo destacou: “As instituições enfrentam barreiras. Precisamos pensar institucionalmente o que buscamos como universidade inclusiva. Os currículos precisam ser mais acessíveis e trabalhar cidadania. As pessoas com deficiência precisam enxergar a universidade como um lugar para elas”.

Os participantes discutiram ainda produção de materiais didáticos, formação de intérpretes, avaliação de neurodivergências, desafios curriculares e possibilidades de novas parcerias.
A visita encerrou as atividades da Virada Inclusiva no Cepre e abriu perspectivas para novas parcerias entre universidade e Secretaria. Ao final, Ivani agradeceu a presença da comitiva.
